Quem espera sempre alcança?

É absolutamente necessário dizer aos brasileiros que eles estão lá para mostrar a beleza do país e sua paixão pelo futebol. Se eles puderem esperar um mês antes de fazerem protestos, isso será bom para o Brasil e para o mundo do futebol.

Declaração de Michel Platini, presidente da UEFA,em 25 de abril, em Paris ao ser interrogado por jornalistas sobre as manifestações sociais que têm sacudido o Brasil

A situação é muito preocupante. Essa antecipação das férias escolares, por conta da Copa, deixa as crianças desprotegidas.

Declaração da deputada federal pelo Rio de Janeiro Liliam Sá, relatora da CPI da Exploração Sexual Infantil

                Prezados leitores, na semana passada eu falei sobre um dos aspectos mais fascinantes e assustadores da globalização que é o fato de como a legislação internacional que ganha corpo por meio dos acordos de comércio está tornando as leis feitas localmenteirrelevantes e colocando corporações e Estados Nacionais em pé de igualdade do ponto de vista jurídico. Hoje tratarei de uma outra face da globalização, que é a dos cidadãos globais, aqueles indivíduos que não estão ligados a nenhum país especificamente, não por serem apátridas, mas por terem interesses econômicos e culturaisque os ligam a entidades internacionais, quer sejam elas organizações com representantes de centenas de países do mundo, como a ONU, a OMC e a FIFA, ou empresas multinacionais.

                A declaração de Michel Platini o faz um típico representante dessa classe de pessoas. Sua fidelidade é ao mundo do futebol e tudo deve ser colocado à disposição desse mundo para que ele funcione perfeitamente. O descontentamento que a população brasileira tem demonstrado com o nosso estado de coisas, às vezes de forma pacífica e às vezes de forma bárbara como vimos no Rio de Janeiro na semana passada, não pode atrapalhar a realização da Copa. O papel do povo brasileiro no mundo global do futebol é claro: devemos parecer ao público dos jogos felizes, sorridentes, dançando samba, comemorando as vitórias da seleção canarinho, tocando bumbo e cornetas, soprando apitos e realizando qualquer coisa que sirva para encantar os turistas reais que aqui aparecerem (estimam-se 600.000) e os turistas virtuais que assistirão ao espétaculo pela televisão ou pela internet. Devemos ser os figurantes acionados pelos organizadores do espetáculo para que estes possam entregar o produto que venderam a preço de ouro: uma Copa do Mundo radiante no país onde o futebol corre no sangue das pessoas. A jogada de marketing é essa, como fica óbvio por outra frase de Platini no mesma ocasião: “as pessoas vão ao Brasil para a Copa do Mundo, como os muçulmanos vão a Meca, como os judeus vão a Jerusalém e os cristãosa Roma…”

                Nada mais óbvio, não?No grande esquema das coisas há países que têm certas vantagens competitivas que lhes cabe explorar e naquilo em que não são tão bons devem ceder o lugar a outros países mais competentes. Futebol é com o Brasil, quanto a outras coisas, como competitividade econômica, altos indicadores sociais, devemos deixar tais assuntos com outros países que são melhores do que nós. Aliás, um outro cidadão global, Ronaldo o Fenômeno, membro do comitê organizador da Copa, deixou isso claro quando disse que não se fazem estádios com hospitais. Entre estádios e hospitais a escolha é clara para o Brasil: devemos ficar com os estádios, pois essa é a nossa vocação natural. Ronaldo pode ter passaporte brasileiro e ter nascido na Vila Cruzeiro, mas ele já há muito tempo ingressou para a turma dos globais, não só por ser comentarista na maior rede de televisão do Brasil, mas por se aliar aos interesses maiores do mundo do futebol ao qual as necessidades nacionais devem ser sacrificadas. Ronaldo ê tão global que ele vai até a Davos para o Fórum Econômico Mundial e ainda é chamado a opinar sobre questões econômicas.

                E quantos sacrifícios nós brasileiros faremos. No altar da Copa do Mundo estamos colocando as crianças e adolescentes de baixa renda e de famílias desestruturadas, que sem ter o que fazer na época das férias escolares, estarão mais disponíveis não só para assistir aos jogos, mas também para se prostituírem e serem prostituídos; estamos colocando também os moradores das regiões “pacificadas” à bala no Rio de Janeiro, submetidos às açõespoliciais ditadas pela ânsia de transformar a toque de caixa favelas em ilhas da fantasia; estamos colocando também os moradoresque foram desalojados de suas casas para dar lugar às obras das arenas; para não falar do sacríficio do dinheiro de todos os brasileiros a quem foi dito de má fé que a maior parte de tudo seria financiada pela iniciativa privada.

                Hoje à tarde estava tomando meu café e lendo o jornal como faço todos os domingos e não pude deixar deouvir a conversa de dois homens de meia idade. Um deles falava que queria que arquibancadas caíssem, houvesse apagão nos estádios e os turistas perdessem jogos por causa de atraso nos vôos. Para ele, o caos seria benéfico porque seria a única maneira de “derrubar o governo”. Tratava-se obviamente de alguém que quer ver Dilma pelas costas e torce para que o fracasso da organização da Copa seja motivo suficiente para convencer o povo a eleger um não petista. Não concordo com tal torcida pelo quanto pior melhor, porque a esta altura do campeonato se houver um grande desastre na Copa o maior prejudicado será o povo brasileiro como um todo. Afinal, o mal já está feito, já gastamos o dinheiro que deveria ter sido despendido com coisas mais prioritárias e menos globais. O melhor é que tudo saia a contento e que pelo menos temporariamente a economia brasileira aproveite o bônus do maior evento esportivo do planeta.

                Por outro lado, não posso concordar com MessieurPlatini, quando conclama nós brasileiros a esperarmos o fim da Copa do Mundo para reclamarmos sobre a violência que nos alflige, a precariedade dos serviços públicos,a alta dos preços. Diante da total incapacidade da nossas democracia de dar vazão aos anseios do povo, além do mínimo necessário para que os políticos possam se eleger, talvez o fato de que o Brasil estará sob os holofotes globais seja uma oportunidade única para que coloquemos pressão sobre nossos representantes. Se fosse possível que nossos protestos fossem pacíficos e não degenerassem em vandalismo e delinquência, ir às ruas em junho e julho é uma boa ideia para tentarmos mudar o que está aí. Mas talvez eu seja muito ingênua e as manifestações que porventura ocorrerem no Brasil serão dominadas pela turma dos que não tem compromissos com nenhum tipo de mudança consistente e querem apenas aproveitar-se da situação para dar vazão a seus interresses mesquinhos.

                De qualquer forma, cidadão globais, Platini e Ronaldo: vocês estão tentando nos convencer de que quem espera sempre alcança. E eu lhes respondo que depende de quemespera: neste nosso admirável mundo novo aqueles queservem os interesses globais sempre alcançam.

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Sobre coisas chatas e irrelevantes

            Porto de águas turbulentas no Uruguai

Brasil apóia projeto de terminal que pode contar com recursos do BNDES e de fundo do MERCOSUL e desviar carga do Brasil

 

Manchete do caderno de Economia do jornal o Globo de 20 de abril sobre a construção do porto de Rocha no Uruguai que contará com financiamento de um bilhão de dólares do BNDES.

 

 

            Prezados leitores, há certos assuntos que passam despercebidos na imprensa, tanto mundial quanto nacional. São assuntos enfadonhos, enfadonhos porque cheios de detalhes incompreensíveis para quem não tenha conhecimento técnico, e principalmente porque não envolvem pessoas que possam ser idolatradas ou vilipendiadas. A imprensa nacional dá atenção às suspeitas de corrupção na Petrobrás porque há culpados, há pessoas que podem ser condenadas pela justiça. O principal atrativo da campanha eleitoral no Brasil é o fato de ser uma dança das cadeiras, os candidatos sofregamente procurando meios de serem mais rápidos do que seus concorrentes, e todos medindo seus passos ao ritmo da música, no caso das pesquisas de intenção de voto. Quando a música para, ou seja, quando as pesquisas de intenção são divulgadas e fica-se sabendo quem desceu e quem subiu, é preciso rearranjar os assentos, o que significa descobrir novos podres dos adversários, divulgá-los na imprensa “séria” e retomar a dança.

            Não se iludam a respeito da imprensa internacional, como se ela fosse mais respeitável e enfocasse os assuntos enfadonhos. Longe disso. O importante é o neoeurasianismo do diabólico Putin que quer fazer renascer a União Soviética por meios tortos, como se os Estados Unidos não estivessem em plena expansão pelo mundo, fazendo guerras no Oriente Médio, na África, “protegendo” seus aliados na Ásia contra a China e ajudando os inimigos de Maduro na Venezuela. Mas meu foco não são as diferenças de tratamento dadas pela imprensa aos Estados Unidos e  à Rússia, algo de que já falei aqui neste espaço. Meu foco hoje são os tais dos assuntos entediantes, que ficam escondidos nas páginas internas dos jornais ou na parte de baixo, quando muito, dos sites de notícias. Meu objetivo é tentar mostrar como o que é aborrecido tem importância vital para nossas vidas cotidianas.

            Começo com a pauta internacional. Vocês já ouviram falar do Tratado de Comércio Transatlântico (TIIP na sigla em inglês) entre Europa e Estados Unidos? Talvez não e,  por favor, não se sintam culpados pela ignorância, pois não é para vocês terem ouvido falar: por motivos estratégicos, tudo está sendo negociado na surdina, à margem dos parlamentos nacionais dos países europeus e dos Estados Unidos. Quando as cláusulas tiverem sido negociadas pelos doutos representantes comerciais elas serão todas, de uma vez, submetidas ao Parlamento Europeu para ratificação, mas então talvez seja tarde demais para que haja algum controle externo. Os deputados provavelmente se perderão na miríade de detalhes e não terão condições de verificar o impacto do que for decidido na vida dos cidadãos comuns. E muito provavelmente o objetivo é mesmo este, de enfiar goela abaixo o pacote pronto, neutralizando qualquer tipo de reação.

            E por que um tratado de comércio deveria ser fonte de preocupação? Afinal, um acordo dessa envergadura criaria um mercado comum de 820 milhões de consumidores, representaria metade do PIB mundial e faria o PIB da União Europeia e dos Estados Unidos aumentar meio por cento ao ano, criando dois milhões de empregos, de acordo com seus defensores. O problema é que o diabo está nos detalhes, tão técnicos e tão entediantes.    O TIIP irá não só diminuir as barreiras alfandegárias, isto é as tarifas aduaneiras, mas também levará a uma harmonização das barreiras não alfandegárias ao comércio, que são as normas ambientais, agrícolas, trabalhistas, fitosanitárias. De acordo com as ONGs européias que denunciam o acordo, isso significará na prática menos direitos trabalhistas, menos proteção contra alimentos transgênicos e contra frangos e gado cheios de hormônios que podem causar malefícios à saúde, entre outras salvaguardas.

            Mas a grande revolução do TIIP, o grande cavalo de Tróia que deixa aqueles que se preocupam com o futuro da democracia ocidental com os cabelos em pé, é a parte jurídica. O principal meio de solução de disputas será a arbitragem. Para quem não sabe, arbitragem é julgamento realizado por um juiz indicado pelas partes que segue a lei que as partes tiverem escolhido previamente. Isso significa que uma empresa multinacional que tiver um litígio com um Estado Nacional qualquer não será julgada pela lei do local, por juízes locais de acordo com o princípio da supremacia do interesse público e todas aquelas garantias e privilégios de que normalmente os Estados tradicionalmente gozaram porque fornecem serviços públicos, isto é que beneficiam toda a coletividade do país. A arbitragem permitirá que uma empresa brigue de igual para igual com um país e ganhe. Aliás, isso já aconteceu aqui na América Latina, quando o Equador foi condenado a pagar 1,77 bilhões de dólares à Occidental Petroleum, que conseguiu fazer com que seu caso fosse julgado em Washington por um tribunal de arbitragem ligado ao Centro Internacional para a Resolução de Conflitos sobre Investimentos (ISCID em inglês) como uma violação do tratado de investimentos entre os Estados Unidos e o Equador. Detalhe: a própria empresa violara o contrato com o governo do Equador que achou por bem tomar a decisão política de encerrá-lo.

            Perceberam a revolução que a arbitragem traz? A transferência de poder dos Estados para as transnacionais? A irrelevância de todas as normas locais quando elas estiverem em desacordo com as normas contidas no tratado de livre comércio? Para que elegermos representantes no Legislativo e mandatários no Executivo se tudo o que eles fizerem em termos de criação de leis e de realização de políticas públicas terá que se conformar com as normas hierarquicamente superiores, porque internacionais, colocadas nos tratados de livre comércio?

            A essa altura devo dizer que uso a segunda pessoa do plural de propósito. Se o TRIIP é um assunto que diz respeito aos europeus e americanos, o acordo que está sendo negociado entre o MERCOSUL e a União Européia diz respeito a nós brasileiros. E aqui enfoco a pauta nacional. Essas negociações não recebem lá muita atenção da nossa imprensa, afinal são coisas técnicas que devem ser deixadas aos especialistas. Mas elas estão caminhando, e poderão ter muitas das conseqüências do TIIP. E pior, nosso governo já parece estar tomando decisões levando em conta os interesses do MERCOSUL muito mais do que os do Brasil individualmente. O porto de Rocha, no Uruguai, com certeza tornará nossa soja mais competitiva por facilitar o acesso à Ásia. Mas e os outros setores econômicos brasileiros, ou seja, aqueles não ligados à exportação de commodities? Será que não seriam mais beneficiados se investíssemos esse dinheiro em nossos próprios portos?

            Prezados leitores, fiz muitas perguntas e não dei nenhuma resposta. As respostas seriam mais bem dadas se houvesse discussão em nosso Congresso e em audiências públicas sobre os prós e contras dos tratados de livre comércio que tanto impacto têm sobre nossas vidas. Mas infelizmente eles são tratados como irrelevantes porque técnicos e chatos. Enquanto isso, na dança das cadeiras, elegeremos novos palhaços para o picadeiro que cada vez mais serão meras marionetes comandadas pelos que mandam no mundo.

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Plus ça change…

Uma médica foi condenada a seis anos de prisão por mandar cortar o pênis do então noivo após ele romper o relacionamento a apenas três dias da cerimônia. O caso aconteceu em 2002, em Juiz de Fora, Minas Gerais, mas a ela foi presa apenas na noite desta terça-feira (01), segundo informações do Estadão.

 

Notícia tirada de jornal

 

                Prezados leitores, cada pessoa tem um passatempo na vida, uma atividade que lhes permite relaxar, sonhar acordado.  O meu é ler livros de história, mas não qualquer livro de história, porque do contrário não serialazer, seria estudo. Gosto de ler livros que falam sobre a vida das pessoas, principalmente mulheres. Como os registros históricos só nos contam a vida das elites, eu acabo lendo livros sobre rainha, mulheres nobres. Não deixa de ser uma leitura sobre os chiquese famosos à la Caras, mas para não cair no conceito de vocês que me acompanham digo que os historiadores que consumo fazem pesquisas sérias a respeito dos seus personagens, pesquisas tão sistemáticas que acabam revelando o detalhe do cotidiano dessas pessoas, os dramas por que passaram, as felicidades etc.

                Meu favorito é um historiador francês chamado Philippe Erlanger. Ele é um biógrafo não acadêmico, do tipo que não se detém muito sobre o contexto econômico, social e cultural da época. O mais importante para ele é o biografado em si, suas relações, sua trajetória de vida, como se ele fosse único, e não um exemplar de uma determinada época. É isso que dáo prazer da leitura e funciona como uma terapia para mim. Terapia no sentido psicológico da palavra, de tratamento para quem sofre de alguma ansiedade, trauma, comportamento doentio. Ao ler sobre mulheres de antigamente eu relativizo meu lugar no espaço, percebo que perdas, rejeição, necessidade de aceitação, carência, não são exclusivos da minha pessoa ou da minha época. A profissional bem-sucedida que manda cortar o pênis do homem que a abandonou sofre da mesma forma que as pobres coitadas analfabetas, cuja vida resumia-se a parir, morrer de parto, ou se tivessem boa saúde e escapassem dos riscos da gravidez, a cuidar dos filhos. Vou dar-lhes dois exemplos do que estou falando.

                Atualmente, nos meus momentos de descanso leio uma biografia sobre Carlos V, que viveu entre 1500 e 1558 e foi Imperador do Sacro Império Romano Germânico, reinando sobre o que é hoje a Espanha, a América Espanhola, os Países Baixos, a Bélgica, partes da Itália (Nápoles e Sicília), partes da Áustria e da Alemanha. Pois bem, meu foco não é ele, mas sua mãe, Joana, a Louca. Seu codinome foi conquistado em razão do comportamento estranho que mostrou ao longo de sua vida de casada. Seu marido era muito bonito e ela tinha um ciúme doentio dele. Se no começo Filipe, o Belo, loiro de olhos azuis, se mostrou fogoso com sua mulher morena de beleza exótica, logo depois ele começou a interessar-se por outras mulheres e esperava que Joana aceitasse isso como boa esposa e se dedicasse à tarefa de parir. Mas a filha de Isabel a Católica e Ferdinando de Aragão, que a haviam neglicenciado, tinha uma carência de amor infinda e esperava queseu garboso marido, um indivíduo fútil e dedicado aos prazeres, suprisse essa carência. O resultado dessa diferença de expectativas foi um casamento tumultuado: Joana desconfiava de todas as mulheres e chegou a raspar a cabeça de uma de suas damas de honra, arranhar-lhe o rosto com as unhas, e dar golpes de tesoura para que sua face ficasse desifgurada e ela não despertasse mais a atenção do marido. Este deu-lhe uma surra depois do episódio, mas foi em vão. Ela mandou vir da Espanha escravas mouriscas que ela fez desfigurar para serem suas damas de honrae assim não despertarem a lascívia do marido. Para encurtar a história, o fim do casamento de Joana e Filipe, foi trágico. Ferdinando mandou envenenar o genro, com quem disputava o poder após a morte de Isabel, e Joana a partir de então tornou-se ainda mais desequilibrada ao perder seu grande amor. A mando do pai, foi enclausurada na fortaleza de Tordesilhas de onde nunca mais saiu.

                Está aí para mim uma boa lição do que a carência faz conosco, do mal que fazemos a nós mesmos quando projetamos expectivas irrealistas em outra pessoa, a quem incumbimos de nos fazer felizes.Talvez se essa médica que acabou sendo presa em Juiz de Fora fosse uma amante de história como eu, ela teria percebido que não era a única mulher a ter desilusões amorosas, que outras mais importantes que ela também sofreram, e assim pudesse ter reagido a sua perda de maneira mais serena, sabendo que qualquer vingança que resolvesse empreender acabaria mal. Pois mesmo que essa mulher cumpra sua sentença e saia logo ou consiga ser solta com algum recurso, sua vida nunca mais será a mesma.

                Outra história que me conforta e me faz não invejar o mundo das celebridades éa de Jacqueline Lee Bouvier Kennedy (1929-1994). Uma mulher linda, culta, poliglota (formada em Letras, falava inglês, francês, espanhol), casada com o homem mais poderoso do mundo. Não repetirei um clichê que ela foi infeliz. Longe disso. Ao contrário de Joana, a Louca, que idealizava o marido, Jacqueline sabia muito bem que tinha casado com um mulherengo contumaz, mas ela era ambiciosa e sabia exatamente o que queria daquele casamento. Aliás, John Kennedy não queria casar, porque sabia que como playboy bon vivant, não estava adaptado a uma vida monogâmica. Mas seu pai o convenceu, ou o obrigou, dirão alguns, argumentando que ele não teria como progredir na carreira política, e passar de senador que era a Presidente da República,se não tivesse esposa e filhos. Duas semanas antes de casar, John Kennedy estava se divertindo na Côte D’Azurcom uma loira maravilhosa. Mesmo tendo sido informada a respeito e visto as fotos Jacqueline não desistiu, porque queria ser primeira dama.

                Se não podemos dizer que foi infeliz, pois consegiui o que queria, Jacqueline passou maus bocados para conseguir seu intento. Seu pai, John Vernou Black Jack Bouvier III era alcólatra e no dia do seu casamento não pôde comparecer porque estava bêbado em um hotel. Kennedy sempre foi um pai ausente e um marido ausente, deixando a família ao léu nos fins de semana para ir à caça. Quando Jacqueline se ausentava da Casa Branca, a caça se realizava lá mesmo na cama do casal. O presidente assassinado só se tornava mais humano e próximo de sua esposa quando era operado (sofria de problemas na coluna e da doença de Addison, uma disfunção endócrina, cujo tratamento tinha como efeito colateral ele estar frequentemente em ereção)e precisava dos cuidados da mulher.

           Valeu a pena para ela?Deve ter valido, porque Jacqueline, depois da revelação de todas aspatifarias do seu marido, nunca pronounciou-se reclamando, nunca colocou-se como vítima, como faria a Princesa Diana décadas depois, de maneira imatura. De qualquer forma, uma das frases de Jacqueline era a seguinte: o segredo da vida é não esperar muito dela. Uma sábia. Grande lição para nós, mulheres com complexo de perfeição, que procuramoscom plásticas, tratamentos de beleza etc tornarmo-nos eternamente lindas para que o companheiro, marido ou namorado não vá atrás de outras. Saibam que ser bela não nos imuniza contra a traição, pois a traição está na cabeça do traidor, a vontade existe independentemente da mulher que está ao seu lado. De fato, quantas mulheres, após receberem um fora, caem no desespero e colocam a culpa nelas mesmas, levam a coisa de maneira demasiadamente pessoal, como se elas fossem particularmente desafortunadas? Saber que uma mulher perfeita como a ex primeira dama americana foi chifrada a torto e a direito é um consolo e um chamamento à razão.

             Espero tê-los convencido dos efeitos terapêuticos do conhecimento da história. Custa infinitamente menos do que um psicólogo, com a vantagem denão nos fazer correr o risco de nos colocarmos no papel de vítima e nem de tornarmo-nos dependentes de uma pessoa que funciona como “pinico” para nossas mágoas, ressentimentos, o que pode acabar fazendo como que os cultivemos para justificar nossas idas ao consultório.Prezados leitores, o segredo da história é que plus ça change plus c’est la meme chose. E isso tem um poder de cura imenso: em certa medida nos impessoaliza, nos torna menos obcecados com nosso próprio ego, nos torna menso ansiosos em atingir a perfeição, que é algo tão cultivadoem nossa sociedade tecnólogica. Sigam meu conselho e nada lhes faltará!

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Liberdade para quê?

Eu deveria então suspender meus cumprimentos à nova liberdade da França até que eu fosse informado de como ela havia sido combinada com o governo; com a força pública; com a disciplina e obediência das forças armadas; com a arrecadação de receitas eficazes e bem distribuídas; com a moralidade e a religião; com a solidez da propriedade; com a paz e a ordem; com os costumes sociais. Tudo isso (à sua maneira) são coisas boas também; e, sem elas, a liberdade não é um benefício enquanto ela dura e provavelmente não durará muito.

Trecho retirado do livro “Reflections on the Revolution in France”, de Edmund Burke (1729-1797), pensador político irlandês

                Prezados leitores, Edmundo Burke não é um autor muito conhecido no Brasil, e a razão é simples, ele é um conservador, e o conservadorismo no Brasil tem uma imagem negativa, associado que está sempre à direita, à ditadura, a deixar as desigualdades sociais como estão, etc. Ele é conhecido por ter, no começo da Revolução Francesa, ter-se colocado diametralmente contra ela, porque para ele revoluções eram perigosas, na medida em que as pessoas a quem é dada a liberdade juntam-se e adquirem poder eo que elas farão com esse poder não será algo necessariamente bom. Para Burke ignorar os costumes, asinstituições da sociedade, tentar recomeçar tudo do zero, só daria em violência e tirania, e seu maior trunfo intelectual foi ter previsto esse desdobramento da Revolução Francesa no Reinado do Terror, em que a guilhotina funcionou a torto e a direito.

                As palavras de Burke vêm à minha mente quando penso na democracia brasileira, na liberdade que nos foi dada ou que foi conquistada depois do fim do regime militar. Nossa democracia se manifesta a cada quatro anos quando fazemos as tais das escolhas de governadores, deputados, senadorese presidente.Desde a primeira eleição direta que tivemos para presidente em 1989 até agora, tenho a impressão que cada vez mais as opções são desprovidas de sentido. Em 1989 tínhamos o candidato capitalista, Collor, contra o candidato socialista, Lula. Atualmente, estamos em um nível de normalidade em que todos se parecem demais. A demonstração mais cabal disso em minha opinião é que não temos um candidato que defenda tal ideia e outro que seja oposto a ela violentamente. Alguém por acaso vai atacar Lula, ou o Bolsa Família? Alguém vai falar que sediar a Copa foi um erro tremendo, considerando os gastos que vamos ter e que já tivemos,para retornos pífios? Alguém vai se insurgir contra a formação de superávits primários para pagarmos nossas contas em dia? Alguém vai lançar um modelo radicalmente novo para os investimentos em infraestrutura que aumente a oferta de serviços sem onerar demais o cidadão comum? Alguém vai propor um novo pacto federativo, isto é, uma nova distribuição das receitas entre os Estados? Alguém vai propor uma prioridade total em alguma área como fez Cristóvam Buarque em relação à educação quando foi candidato? Alguém vai propor um plano detalhado e factível de como fazer uma reforma tributária relevante, além das meras manifestações vagas daintenção de reunir os “atores da sociedade civil” para discuti-la e blá blá blá?

                A resposta é não, pois a palavra da moda nessas eleições será o “microgerenciamento”. Para os homens que fazem a cabeça de Aécio Neves, o problema está em que o governo interfere demais na economia, nos preços, na alocação de capital,eliminando esse intervencionismo exagerado tudo melhorará. O governo cometeu erros no setor energético, antecipando o fim de concessões e causando prejuízos de8 bilhões de reais às distribuidoras. A solução é gerenciar melhor, tomar as decisões corretas, não interferir na segurança jurídica dos contratos com as concessionárias.Em suma, é uma questão de ajuste fino. Para o povão que vota, e que não entende o jargão dos economistas, a coisa provavelmente girará em torno da percepção de quanto dinheiro cada um tem no bolso agora e espera ter no futuro se Dilma ficar ou for defenestrada. Ou então da percepção sobre quem é mais ladrão, ou seja, um embate entre mensalão petista e mensalão mineiro, Alstom versus Petrobrás. Ou sobre quem é mais incompetente, incapaz do tal do microgerenciamento, petistas que criaram o nó da energia, ou os tucanos em Sâo Paulo, que estão raspando o fundo do tacho do Sistema Cantareira.

                Alguns dirão que o fato de questões comezinhas serem o cerne da eleição é um sinal de maturidade da sociedade brasileira, que fez uma opção definitiva por um Estado do Bem Estar Social. Mesmo que isso seja verdade, isto é, que tenhamos escolhido a justiça social como valor principal,resta ainda a pergunta de comocolocar essa justiça social na prática, de maneira duradoura. E para isso seria preciso que nossos ilustres candidatos a presidente tivessem resposta a todos os desafios que coloquei acima, algo que passará ao largo da campanha. Para mim essa é a grande disfunção da nossa democracia, o fato de ela se propor grandes objetivos e ser incapaz de propor os caminhos reais, factíveis para colocá-los em prática.

                O povo brasileiro instintivamente sabe desse nosso ponto fraco, das frustrações que todos os mandatários de cargos executivos geram no Brasil, e os mais privilegiados procuram o Judiciário como válvula de escape. O STF tem atualmente em sua agenda casos bastante espinhosos, entre os quais a correção de depósitos bancários que sofreram expurgos pelos planos de combate à inflação, e a substituição da TR, taxa referencial do Banco Central, por um índice que reflita melhor a inflação para o reajuste dos depósitos do FGTS. A suprema corte fica entre a cruz e a caldeirinha: como garantir os direitos de poupadores e trabalhadores e ao mesmo tempo a governabilidade? Afinal, se houve tunga na atualização monetária por parte do Executivo, é porque as pessoas que o povo brasileiro elegeu estabeleceram certas prioridades, tiraram dinheiro de uns para dar para outros. Para a correção da injustiça, seria preciso que aqueles que a Caixa Econômica Federal beneficiou com o dinheiro retirado do FGTS devolvessem o que lhes foi dado, ou que pelo menos fossem obrigados a partir de então a não mais se beneficiar de empréstimos pela Caixa. Será possível enfrentar grupos de interesse? Será razoável esperar que o Judiciário compre essa briga em nome dos poupadores e trabalhadores brasileiros? Ou será que caberia a nós brasileiros lutarmos pelos nossos direitos, votando de maneira consciente, fiscalizando o trabalho dos nossos legisladores? Temos capacidade e cultura de organização local para sermos capazes de fazer nossos governantes de fato prestarem contas a nós de maneira cotidiana?

                E aqui volto a Edmund Burke, o conservador, para quem a força de uma sociedade está naquilo que ela tem de permanente, que lhe permite enfrentar os desafios. E aplicando os critériosburkianos chego à conclusão que as perspectivas no Brasil não são animadoras. Temos uma política democrática sim, eleições, divisão de poderes, mas nossa cultura, nossas tradições, não têm nada de democrático, pois tendemos a deixar as decisões nas mãos dos “profissionais”, sejam eles o síndico do prédio, o diretor da escola, o prefeito, o governador, Supremo e por aí vai. Enquanto formos assim, a liberdade servirá àqueles que têm poder adquirem mais poder.

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Sobre cachorros, grandes e mortos

Parabéns, militares – 31 de março de 1964. Graças a vocês, o Brasil não é Cuba.

Faixa de propaganda aérea de autoria do deputado federal Jair Bolsonaro

Países grandes e com ambições precisam se definir

Comentário de Thomas Shannon, conselheiro do Departamento de Estado dos EUA, sobre a omissão do Brasil na Crimeia

 

                Prezados leitores, estamos em pleno período de celebrações oulamentações, a depender da visão de mundo de cada um, do 31 de março de 1964 que nos deu o golpe e a ditadura militar. Houve cadernos especiais nos jornais, nas revistas semanais, programas na TV. Eu, como não tenho experiência pessoal dos acontecimentos daquela época, só posso conhecê-los por meio de relatos de outros, o que limita bastante meu entendimento. Mas isso é inevitável e no final das contas cada um adota uma posição a favor ou contra de acordo com os valores que considera fundamentais.

              Há quem, como o tão execrado Jair Bolsonaro, considere queo mérito do militares esteve em ter evitado que o Brasil caísse nas garras da União Soviética, que àquela época dedicava-se à missão apostólica de evangelização dos povos acerca dos benefícios do coletivismo,e se transformasse em uma ditadura tropical comunista como a Ilha de Fidel Castro, decrépita e anacrônica.Outros, como a maioria dos acadêmicos de universidade, muitos deles tendo sofrido na pele a repressão nos anos de chumbo, lamentam que o golpe tenha atrasado durante décadas o desenvolvimento de nossa tão frágil democracia, tenha fomentado a corrupção, a desigualdade social e tenha colocado o Brasil nas garras do capitalismo internacional, capitaneado pelos Estados Unidos, que àquela época igualmente dedicava-se a uma missão apostólica de evangelização acerca dos benefícios do livre mercado.A esta altura a pergunta automaticamente surge: considerando o que se desenrolou no Brasil de 1964 a 2014, qual teria sido a melhor opção?Teria sido melhor ter participado da Marcha com Deus pela Família e pela Liberdade ou ter estado presente no famoso Comício de Jango Goulart na Central do Brasil?

                 Minha resposta para esse dilemaparecerá a alguns uma saída pela tangente. Não, não vou dizer que ambas as opções, o populismo de Jango ou os milicos, tinham suas vantagens e desvantagens. Isso é óbvio, e eu não ofenderia a inteligência de ninguém adotando a posição em cima do muro. Simplesmente direi que a tragédia está no fato de que fomos colocados entre a cruz e a calderinha, isto é, em uma situação em que tínhamos que optar por duas posições que eram representadas como radicais. E fomos colocados nessa posição devido à conjuntura internacional da época em que Estados Unidos e União Soviética se digladiavam na Guerra Fria, uma época em que os países, todosmenos poderosos do que os dois pesos-pesados,tinham que fazer a opção entre um e outro, opção essa que implicava de um lado conseguir amigos fiéis e de outro lado fazer inimigos mortais. E considero isso uma tragédia porque países relativamente fracos, que precisam escolher de que lado ficarão na luta, normalmente se vêem na situação de fazerem opções econômicas e sociais que não refletem necessariamente seus interesses nacionais, mas apenas aquilo que é mais conveniente no esquema das coisas estabelecido pelos cachorros grandes. Em 1964 o Brasil, ou melhor, aqueles que tinham o poderno Brasil, escolheram abrir-nos para os investimentos estrangeiros, para o crescimento econômico à custa de endividamento externo, sem que houvesse muita preocupação com justiça social, afinal justiça social era coisa de comunistas comedores de criancinhas.

             Trago essas duras escolhas à tona porque acredito que a história está se repetindo. Estamos em um momento de turbulência internacional talvez como nunca antes visto no pós Segunda Guerra: estagnação econômica na Europa, uma crise financeira ainda não totalmente superada em todo o mundo, os Estados Unidos intervindo militarmente – de maneira aberta ou camuflada –com a missão de combate ao terrorismo no Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Paquistão, Iêmen, Somália, Líbano e ameaçando países como Venezuela e Irã de sanções e no caso do último as aplicando, se não entrarem na linha.Do outro lado do ringue, por enquanto, está a Rússia, sentindo-se ameaçada, anexando a Crimeia como resposta a essas ameaças. Não vou aqui falar da crise na Ucrânia, da qual falei há duas semanas, ressaltando apenas como a postura de superioridade moral do Estados Unidos tem lá seus pontos fracos. Meu ponto é que parece que estamos em mais uma dessas encruzilhadas da história, em que os pequenininhos, e não nos iludamos com as palavras de Thomas Shannon, o Brasil é um piccolino em termos geopolíticos, têm que tomar partido, independentemente de suas reais prioridades nacionais: Atenas ou Pérsia, Atenas ou Esparta, Estados Unidos ou Rússia.

             Afinal, por que agora parece estar sendo criado um consenso de que o Brasil está em péssima situação fiscal? O que houve de novo? Nossa política econômica é a mesma desde os tempos de FHC, há quase 20 anos: criar supéravits primários para pagamento de dívida, o que nos leva a ter pouca margem de manobra para investimentos. Essa receita não inclui fazer reforma profunda nenhuma, afinal é preciso cooptar apoios para a tal da “governabilidade” e reformas são sempre polêmicas. Por que agora a Standard and Poor’s abaixou nossa classificação? Será que é apenas uma questão de grau e o que era medíocre transformou-se em desastroso, ou o que era maravilhoso tornou-se de repente trágico? Até há pouco tempo éramos louvados porque pagávamos nossas dívidas em dia, ao contrário da Argentina, porque seguíamos um curso esperado de política monetária e fiscal. Agora aqui e alhures lamenta-se o fato de que o Brasil perdeu a oportunidade de fazer as reformas necessárias que nos garantiria crescimento econômico mais sustentável. Dilma foi eleita com a fama de ser gerente eficaz, e agora é acusada de ser responsável pelo fato de as ações da Petrobrás terem caído de 100 para 37 reais. Será que ela sempre foi incompetente e estávamos todos iludidos com a propaganda petista, ou de repente ela tornou-se incompetente em um momento em que é preciso fazer escolhas, escolhas a respeito de quem apoiar na Venezuela – Maduro ou Capriles -, de quem é preciso apoiar na Ucrânia, Estados Unidos e União Europeia ou Rússia.

              Prezados leitores, torço para que minhas suspeitas sejam infundadas e que não estejamos sendo pressionados para escolhermos um lado. Talvez seja pura paranóia da minha parte e não estejamos à beira de um grande conflito mundial. E mais importante, torço para que Dilma Rousseff, independentemente dos seus defeitos e qualidades, não seja transformada em cachorro morto que leva pancada de todos os lados. Em suma, que os 50 anos do golpe de 1964 não sejam revividos como farsa.

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