autoridade, para quê?

               Uma professora recém-formada, Maria, imbuída de ideais sobre educar os mais desfavorecidos para tirá-los da marginalização social a que estão condenados pela ignorância e pela falta de qualificação profissional, decide trabalharem um colégio de subúrbio. Em 5 de abril de 2012 às duas e vinte da tarde elaestá iniciando sua aula quando um adolescente de 16 anos, encapuzado,armado de uma soqueira, desfere vários golpes no rosto da professora, que cai no chão sem que nenhum dos alunos tente fazer nada para deter o adolescente.Maria leva 15 pontos e fica 10 dias afastada do trabalho. Descobre-se que na verdade o adolescente tinha feito o serviço a mando de um dos alunos da desafortunada Maria, que havia descoberto que o menino de 14 anos falsificara documentos do colégio utilizando o selo oficial da escola, o que valeu uma punição de seis dias de suspensão. Como represália, o aluno de Maria havia escrito “puta porca” nos muros e nas cadeiras do colégio, apoiado pela mãe que acusava a professora de ser mentirosa. Neste mês demarço finalmente sai o veredito do processo penal: um ano de prisão com direito a sursis. O episódio marca a pequena, e frágil moça de tal forma que ela desiste de dar aulas em escolas de subúrbio.

            Prezados leitores, essa pequena história, real, poderia muito bem ter acontecido no em Sâo Paulo ou no Rio de Janeiro, em qualquer escola da periferia ouem uma favela dominada pelo Comando Vermelho. Poderia, mas na verdade ela se desenrolou na França, no Colégio Garcia-Lorca, em Saint Denis. Se quiserem mais detalhes, acessem (http://www.lepoint.fr/invites-du-point/jean-paul-brighelli/brighelli-violence-a-l-ecole-pour-marie-qui-voulait-etre-utile-en-zep-19-03-2014-1802836_1886.php). Estamos acostumados no Brasil com a desvalorização dos professores, com a desestruturação das famílias que gera a violência e a delinquência, com o reflexo desses comportamentos na escola.Mas ouvir falar disso em países do Primeiro Mundo nos causa espanto e dá uma medida do ponto a que chegamos no Ocidente em termos de erosão do conceito de autoridade.

              Autoridade tornou-se sinônimo em nossa cultura de algo ruim. No Brasil, uma das heranças da ditadura que se instalou em 1964 foi ter manchado este conceito de maneira indelével: ela é sempre confundida com autoritarismo, com tortura, com violência policial, com arbitrariedades.A relação dos brasileiros com a ideia de polícia é um sintoma disso: é verdade que nossa polícia é muito mal treinada e tende a descer o sarrafo em pretos e pobres. Mas quando ela cumpre seu papel e contém uma baderna ou quando ela é chamada para atuar em uma greve de estudantes privilegiados de universidade pública ela é acusada de agir como na ditadura, como se o policiamento não fosse algo necessário quando aqueles que se acham defensores de causas nobres se excedem.

           Em países como a França, que não estiveram sob o jugo de ditaduras, a desconstrução da autoridade é algo devido não a um episódio histórico como um golpe militar, ou a um passado de violência estatal institucionalizada que se quer apagar definitivamente, mas a um desenvolvimentosecular das democracias liberais do Ocidente, fruto do Iluminismo. De acordo com a filósofa Hannah Arendt, em seu ensaio denominado “A Crise na Educação”,tais regimes chegaram a um ponto de amadurecimento em que a autoridade e a tradição são constantemente solapadas em nome dos direitos individuais. Em uma democracia, nenhuma autoridade consegue preeminência, pois ela pode ser rapidamente destruída por uma maioria que a rejeitar. O efeito mais pernicioso desse foco total nos direitos se dá na educação. As crianças aprendem desde cedo que têm direitos, direitos que os pais e os professores, as primeiras fontes de autoridade na vida de uma criança, não podem infringir. Para Hanna Arendt, isso causa um dano psicológico irreparável nos pequenos: tratados como príncipes, eles ficam livres não para transformarem-se em adultos independentes, com força de caráter, mas em seres medrosos à mercê dos seus pares, das outras crianças e adolescentes que exercem controle de maneira tirânica e caprichosa, muito mais tirânica e caprichosa do que uma autoridade individual como a mãe, o pai e o professor fariam. O resultado é que esses príncipes tornam-se escravos do politicamente correto, tímidos demais para divergirem das ortodoxias do momento.

              Há outras consequências nefastas dessa educação centrada no desafio constante à noção de autoridade. Isso é verificado em um outro país de Primeiro Mundo com democracia para lá de consolidada, a Suécia. De lá vem o alerta de um psiquiatra de 42 anos, David Eberhard que escreveu um livro, “Como as crianças assumiram o poder” (tradução minha) que denuncia a abordagem educacional focada nas crianças, prevalecente na Escandinávia desde a década de 1960, que transformou o país em uma nação de “ouppfostrade”, que pode ser traduzido como crianças levadas. Para o médico, a falta de disciplina na infância fez com que milhões de suecostenham se tornado indivíduos incapazes de lidar com os desafios da vida adulta, o que é evidenciado pelas taxas acima da média de distúrbios de ansiedade e suicídio entre filhos de pais liberais que não exerciam a autoridade.Essa filosofia permissiva também está presente nas escolas. Eberhard descreve como os professores suecos não podem insistir para que as crianças parem de mexer no celular durante as aulas: eles devem convencê-los de que fazer isso é uma má ideia. Caso tomemo celular sem o consentimento do “príncipe” provavelmente ouvirão um sermão sobre os direitos das crianças.

              Eu mesma que não sou mãe já presenciei manifestações desse liberalismo. Tenho uma amiga que tem uma filha única que amava jogar futebol. Sua paixão a levou a romper os ligamentos de um joelho. Eu perguntei-lhe o porquê de ela não proibir a menina de jogar, fazê-la dedicar-se a outra atividade: ela respondeu-me simplesmente que não podia fazer nada, pois a filha gostava dojogo bretão, como diria o Armando Nogueira. Resultado: rompimento dos ligamentos do outro joelho, mais uma operação e aos 20 anos a moça tem dois joelhos imprestáveis que trarão várias sequelas em sua vida futura (aqueles que têm problemas ósseos saberão do que estou falando), pelo fato de que os pais seguem o princípio sacrossanto de que é proibido proibir. Por outro lado, como professora que fui no início da minha vida profissional, vivenciei um episódio que foi um dos motivos por que eu desisti do ensino. Um dia coloquei a mão na cabeça de uma adolescente infernal que não parava quieta e pedi-lhe que trouxesse o livro na próxima aula, coisa que ela não havia feito até então. Ela reclamou com a mãe que eu havia batido sua santa cabecinhana parede e a mãe, furibunda, foi reclamar com a diretora, que não perdeu tempoo em me dar uma “carcada”.

           Hanna Arendt alerta que as democracias ocidentais vivem um dilema: por um lado minam suas instituições – família, escola, igreja – por meio dessa condenação geral e irrestrita da autoridade, por outro lado precisam dessas instituições se quiserem sobreviver enquanto sociedades civilizadas. Qual a solução? Ninguém ainda achou uma resposta que permita a Marie, o nome verdadeiro da professora, a voltar a ter fé na sua missão de educadora e voltar à sala de aula do Garcia-Lorca.

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Dois pesos, duas medidas

     Prezados leitores, depois do meu idílio siciliano, minhas atenções estão voltadas a assuntos mais práticos. No Brasil temos sempre o velho problema da incompetência em todos os níveis, incompetência na gestão das obras da Copa, na gestão dos recursos hídricos, que estão levando a um racionamento cada vez mais provável tanto deágua quanto de energia. Nossas autoridades aparentemente não consultam os meteorologistas quando planejam suas políticas e quando o fazem parecem não levar em conta os dados. Em São Paulo, o Sistema Cantareira está em níveis críticos e ainda não foi estabelecido o racionamento de água que a essa altura é obviamentenecessário, visto que vamos entrar na estação seca, que dura até setembro. Se não tivemos muita água até agora, não podemos nutrir esperanças que ela cairá de maneira mais assídua nos próximos meses. Mas com certeza a prioridade não é tentar evitar que a situação piore ainda mais, mas simplesmente evitar que as pessoas percebam que algo está ruim antes das eleições. Portanto, haverá um empurrar geral com a barriga para que os governantes saiam bem na foto.

           Já no cenário internacional coisas muito interessantes estão acontecendo. Não falarei aqui do avião desaparecido, porque seria inútil comentar um assunto sobre o qual não há fatos revelados e especulações só podem ser feitas por quem entende de voos e aeronaves, o que obviamente não é meu caso. Falarei aqui de um assunto superficialmente abordado aqui há duas semanas, a crise na Ucrânia, mas que merece um tratamento mais detalhado, já que envolve duas superpotências nucleares, os Estados Unidos e a Rússia, que estão se enfrentando, de um lado os americanos querendo aumentar sua zona de influência no Leste da Europa tenando trazer os países da ex União Soviética para a OTAN, de outro os russos, querendo recuperar o terreno perdido nos anos 1990, com o desfazimento doimpério.

        Antes de mais nada, farei a ressalva de que é difícil gostar de Vladimir Putin. Ele é ex agente da KGB, nunca sorri, não faz selfies simpáticos como o Obama. Acima de tudo é um indivíduo antiquado demais, porque defende interesses mesquinhamente nacionais, no caso específico o acesso da Rússia ao Mar Negro por meio da Crimeia, num mundo em que a noção de soberania está cada vez mais diluída, e porque defende valores tradicionais a respeito de papéis sexuais. Obama ao contrário é o líder moderno, global, vive fazendo discursos maravilhosos a respeito de abstrações tais como democracia edireitos humanos. Nesta luta, parece que temos duas forças em conflito: de um lado o Ocidente iluminado que defende o direito da Ucrânia de entrar para a União Europeia, de participar dos fluxos internacionais de comércio, de modernizar-se com subsídios europeus, enfim de buscar novos caminhos, livre do jugo russo; de outro lado temos a Rússia retrógrada, cujo líder Stalin foi responsável pela morte de 7 milhões de fazendeiros ucranianos com sua coletivização forçada da agricultura, que sempre dispôs do território que pertence à Ucrânia como lhe aprouve, como sempre fazem aqueles que têm poder.

       Prezados leitores, não é minha intenção tentar convencer qualquer um que já tenha opinião formada sobre o assunto. Cada um de nós tem simpatias e antipatias naturais, fruto dos nossos valores, os quais nos fazem enxergar a realidade por determinado prisma. Portanto, não sou ingênua a ponto de achar que conseguirei fazer com que cada um que me leia mude radicalmente seu modo de encarar Vladimir Putin e a Rússia. Meu objetivo é bem mais modesto: só quero tentar mostrar como a posição dos Estados Unidos neste episódio é incoerente e demonstra que a pauta americana é negativa, no sentido de que toda essa conversa sobre democracia, auto-determinação é uma balela e o foco principal é simplesmente enfraquecer a Rússia, inimiga dos Estados Unidos porque não se rende como a maioria dos países o fazem. Farei isso lançando-lhes algumas perguntas para que vocês pensem com seus botões.

         Minha primeira pergunta diz respeito à tal da defesa da democracia. Por que os Estados Unidos são tão seletivos na sua defesa deste nobre ideal? Em certos países a democracia precisa ser imposta à custa da ilegalidade,como no caso da Ucrânia: lembrem-se que bem ou malo presidente Viktor Yanukovich havia sido eleitoe ele foi deposto de um dia para o outrosem o devido processo legal. Em outros países é preciso simplesmente ignorar a voz das urnas: o presidente Mohamed Morsi, democraticamente eleito no Egito em 24 de junho de 2012 (51,7% dos votos no segundo turno), foi deposto pouco mais de um ano depois,em 3 de julho de 2013 com o beneplácito dos Estados Unidos. Na Venezuela, Chavéz sempre foi aclamado pelo povo nas eleições e os Estados Unidos o acusavam de tirano.Ficoatordoada com a concepção americana de líder democrata. Parece que democracia autêntica é aquela que atende os interesses americanos,democracia “populista”, “caudilhesca”, perniciosa é aquela praticada por governantes que resolvem trilhar um caminho mais independente. A Arábia Saudita é um país governado de maneira despótica, em que os homossexuais têm um tratamento infinitamente pior do que na Rússia do monstruoso Putin e no entanto, os Estados Unidos nunca denunciaram os sauditas em nenhum foro internacional, mesmo porque não há nem possibilidade de haver rebeldes como as Pussy Riots, cujas estripulias são impensáveis em um país em que as mulheres não podem nem votar.

       Minha segunda pergunta é tomada de empréstimo de um jornalista britânico Peter Hitchens: o que Washington faria, se num momento de fraqueza do país, as terras dos Estados Unidos tomadas dos mexicanos pela força em 1848 se tornassem independentes e políticos russo viessem a Albuquerque, no México, dar seu apoio explícito a protestos que defendessem uma aliança entre o novo Estado e Moscou? Não há dúvida que a Rússia tem interesses vitais nos destinos da Ucrânia. A maior parte da população da Crimeia fala russo, a Rússia é um país que não tem defesas naturais contra inimigos externos, como a invasão napoleônica e nazista comprovam: deixar que um governo inimigo, que acabou sendo tomado por neonazistas, se estabeleça na Ucrânia, país que dá aos russos sua única via de acesso marítimo no lado ocidental, por meio da frota lotada em Sevastopol, é altamente arriscado. Por que quando os Estados Unidos defendem seus interesses eles estão defendendo a democracia, os direitos humanos, o livre comércio, e quando um outro país, cujos interesses podem colidir com os americanos, defendem os seus, eles são autoritários, violadores do direito internacional?

      Para finalizar, por que os Estados Unidos não reconhecerão o resultado do plebiscito realizado na Crimeia neste domingo? O que há de ilegítimo em uma consulta ao povo da Crimeia que se assustou com as primeiras medidas do governo recém instalado em Kiev, entre as quais estava a proibição do russo como língua oficial? Se há razões para prever fraude, o mais sensato teria sido despachar observadores internacionais, negociar os termos do plebiscito. Não, a postura dos Estados Unidos foi taxativa: nada de plebiscito, que viola a Constituição da Ucrânia, como se um golpe de Estado contra um governo democraticamente eleito já não tivesse violado. Aliás, se Putin fosse tâo tirânico ele teria imitado os Estados Unidos, que nos anos 90, quando Kosovo quis autonomia da Sérbia, simplesmente atacou a Sérbia e provocou a separação à força.

       Prezados leitores, minha intenção aqui não é santificar Vladimir Putin, apenas mostrar-lhes que vivemos em um mundo muito perigoso. Perigoso porque a maior potência global age de maneira incoerente e portanto totalmente desprovida de legitimidade. Nós, latino-americanos fomos vítimas deste agir prepotente, arrogante do império americano em 1964, quando o excelentíssimo Lincoln Gordon, defendendo os interesses do seu país, tanto fez para insuflar a instabilidade que deu no golpe de 1964. Naquela época era o medo do comunismo que justificava a política externa americana, hoje há um rol de conceitos abstratos (terrorismo, democracia, direitos humanos) que parecem apontar para uma única conclusão: os Estados Unidos procuram destruir qualquer país que entre em choque com seus interesses, interesses esses que são sempre aqueles de todo império: interesse por riquezas naturais, poder econômico.Essa crise na Ucrânia tem tudo para acabar muito mal, não só para os ucranianos como para o resto do mundo. Esperemos que haja bom senso de ambos os lados para que a Ucrânia de 2014 não seja a Sérbia de 1914: o estopim de um conflito mundial.

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Volta da filha pródiga

Entre todos os povos, foram os gregos quem mais belamente sonharam o sonho da vida

Johann Wolfgang Goethe, após visitar o sul da Itália e a Sicília em 1787

        Prezados leitores, antes de mais nada devo fazer uma pequena retificação. Há duas semanas eu falava do Grand Tour da aristocracia europeia no século XVIII, mas ao menos na Inglaterra este movimento teve início no Renascimento e amadureceu no século XVII. Havia um motivo prático na origem: tais viagens constituíam um treino para o exercício futuro de posições no governo. De fato, a vitória do Estado sobre a Igreja, a qual tinha tanto se encarregado dos negócios oficiais, aumentou as oportunidades de emprego das elites, assim como a expansão dos recursos administrativos e das ambições do governo. Tais oportunidades trouxeram desafios também: os monarcas precisavam de conselheiros, funcionários e diplomatas que fossem capazes e tivessem conhecimento das coisas.

           Assim, os nobres incitavam seus filhos a irem além dos prazeres da caça e a se educarem. Um dos componentes dessa educação eram as viagens. Os viajantes eram orientados não só a olhar a paisagem ou maravilharem-se com a esquisitice dos estrangeiros, mas procurar informarem-se a respeito da organização política e das lutas de poder, da capacidade militar dos locais visitados. Esses conhecimentos não só alimentariam e alargariam a mente dos futuros governantes, mas seriam imediatamente úteis aos pais desses jovens na sede do governo inglês, em Whitehall. Isso tudo eu tirei de uma crítica sobre um livro recém publicado na Inglaterra, The Jacobean Grand Tour: Early Stuart Travellers in Europe.

            Esse intróito sobre os objetivos utilitaristas dos primeiros turistas tem dois propósitos. Serve para lhes comunicar que meu sonho siciliano terminou na sexta-feira e para fazer uma humilde comparaçãodo meu Grand Tour com aquele dos séculos passados. Não volto ao Brasil para ocupar algum cargo no governo ou para fazer relato das maquinações dos inimigos do meu país.Por outro lado, pensar nas semelhanças e diferenças sempre expandem os horizontes de cada um. A começar pelo que é comum, tanto na Sicília quanto aqui no Brasil o luxo e o lixo convivem lado a lado. Os templos gregos, palácios, igrejas, jardins convivem com lixo jogado nas ruas e terrenos baldios, e com os rios transformados em esgoto. Houve momentos da minha viagem em que eu pensei estar nas partes mais sujas de São Paulo.

          Tal convivência dos opostos não é de se estranhar, considerando a situação econômica por que passa a Itália. Um siciliano que encontramos no trem nos contou que 50% da população está desempregada. Não sei o quanto a estatística é confiável, mas de qualquer forma ele deu um exemplo pessoal: ganha 1.600 euros por mês como professor, mas precisa viajar todos os dias de Palermo a Agrigento (duas horas de trajeto) para poder trabalhar, caso contrário ficaria desempregado. De qualquer forma, as pessoas com as quais conversamos foram unânimes em dizer que o euro foi um desastre para a Itália. Ainda que não soubessem precisar a razão, enfatizavam sempre que depois da introdução da moeda única nada tinha sido como antes. Por lá há crianças brancas pedindo dinheiro na rua, homens brancos de olhos azuis sentadosna calçada mendigando. Um velhinho branco abordou-me em uma igreja pedindo dinheiro e perdi a conta das vezes em que vieram oferecer-me flores, isqueiros e outros badulaques na rua.Mencionei a brancura dessas pessoas para enfatizar que a pobreza não está circunscrita a minorias de imigrantes de países subdesenvolvidos da África.Portanto, em muitas ocasiões eu assisti a um filme com cujo roteiro já estou acostumada como brasileira.

          No entanto, houve algo com o qual não estou acostumada e que me fez ter uma nova visão do Brasil, desmistificar a ideia de que somos um país católico. Perto dos sicilianos, somo uns ateus ou pagãos, a depender do ponto de vista. O catolicismo está impregnado no cotidiano das pessoas, a começar pelo respeito ao domingo, domenica. Lembro que quando criança domingo era dia de descanso, tudo ficava fechado, era um dia de paz e tranquilidade. Hoje nas grandes cidades brasileiras domingo é dia de consumo, um dia praticamente como outro qualquer. Na Sicília, mesmo na capital, Palermo, domingo continua a ser o dia em que o Criador descansou após seus monumentais trabalhos da semana.A vida do turista sempre se complica nos domenicas, porque há menos ônibus, muito menos restaurantes. Só as igrejas funcionam de manhã, para a missa.

            Mas a religião não se manifesta só no culto ao ritual dominical. Há o culto aos santos, colocados em altares nas ruas, nas lojas, nas casas, há as rezas puxadas normalmente por uma mulher ao final da tarde, as procissões para celebrar a vida dos santos. Acompanhei uma delas, a de São Gerlando, pelas ruas de Agrigento, cidade da qual ele é patrono, tendo lá morrido em 25 de fevereiro de 1100: o apresentador contava as peripécias de Gerlando contra os sarracenos, enquanto as pessoas vestidas a caráter como personagens da Idade Média subiam as estreitas vielas da cidade rumo à Catedral, onde estão as relíquias do santo. Aliás, relíquias é o que não faltam na Itália: eu vi o ombro direito de Santa Lúcia, um seu vestido vermelho, o corpo de Sâo Luís na Catedral de Monreale. Realmente, o catolicismo na Sicília está em outro patamar em termos de intensidade.Apesar de a Igreja ter perdido grande parte da sua clientela, o fato é que o catolicismo não foi substituído por nenhuma outra religião, como aconteceu no Brasil com a ascensão dos evangélicos. Devotos ou não, os sicilianos continuam fiéis à Igreja Católica Apostólica Romana.

          Por fim, devo mencionar outra experiência que tive nessa viagem que me fez refletir sobre o Brasil. Na minha longa viagem de volta eu tive que tomar um avião de Palermo para Barcelona, e lá fiquei algumas horas, tempo suficiente para andar por dois parques à noite, ver as pessoas fazendo cooper, andando de bicicleta, passeando com o cachorro, tudo de graça, com direito a apreciar a natureza, sentir o cheiro das plantas e olhar a lua. Na minha Sâo Paulo diversão gratuita em parques públicos é muito difícil. As pessoas de “bem” têm como lazer ir ao shopping center, ao cinema, à praia, todas atividades que demandam dinheiro. Parque é normalmente o lugarem que pobre faz churrasco porque não tem aonde ir. É muita exclusão social, um verdadeiro apartheid, que na minha opinião muito contribui para nossa violência: os lugares públicos em São Paulo estão cada vez mais esvaziados e menos acessíveis. O Parque Burle Marx, onde há a última faixa de floresta nativa na várzea do Rio Pinheiros, está sendo assediado por construtoras, e os moradores da região estão lutando para conseguir barrar os empreendimentos e garantir o acesso de todos a um espaço tão privilegiado, nem que seja teórico, considerando a falta de transporte fácil até lá.

           Prezados leitores, é com essas reflexões sobre os pontos fortes e fracos da Sicília que finalizo meu Grand Tour. Na semana que vem a filha pródiga, retornada mentalmenteao Brasil,voltará a se ocupar dele, tendo acumulado uma grande dose de cores, cheiros e formas de que com certeza lembrarei pelo resto da minha vida.

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Desastres

           Prezados leitores, o Carnaval está nas ruas no Brasil, e a maior parte das notícias que vejonos sites de notícias diz respeito a quem desfilou, como foi o desfile, quem beijou quem, quem chorou, quem foi um sucesso, quem foi um fracasso, quem cantou, quem dançou e por aí vai. O mundo fica suspenso para nós, brasileiros, ou melhor, para os jornalistas que escrevem as notícias e priorizam o Carnaval. Como estou a quase 10.000 quilômetros de distância e onde estou mal se percebe que estamos a 40 dias da Semana Santa, tomo a liberdade de dedicar essas linhas a outros assuntos, assuntos esses que ocuparam minha mente de turista nesses últimos dias.

        Como já disse aqui em outra oportunidade, viajar é dar-se um tempo que não nos damos normalmente para certas coisas. Estou no momento em Piedimonte Etneo, aos pés do Monte Etna, aquele que em dezembro de 2013 brindou os sicilianos com “maravilhosos” fogos de artifício. Coloco maravilhosos entre aspas porque como turista adoraria ter a sorte de vê-lo em erupção claro, aliás da janela do apartamento onde estou posso ver o pico do Monte Etna coberto de neve. Mas, para os habitantes dos arredores, é um grande transtorno financeiro, é preciso, entre outras coisas,reparar os telhados cobertos de cinzas. Aliás, nós havíamos inicialmente contratado a hospedagem com outra pessoa, mas a casa dela foi afetada pelas diatribes do vulcão e ela teve que nos dar o cano.

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         Pois bem, a vila tem exatamente 3.671 habitantes e não tem em si grandes atrações turísticas, por isso neste domingo dediquei-me a uma coisa simples que me dá um prazer imenso, tomar sol. Fui a um mirante com vista para o Mar Jônico ao fundo e para a vegetação florida à frente e sentei-me num banco. Está um frio danado aqui, danado para nosso padrões tropicais, nove graus. Eu estava toda encapotada e não há como descrever a sensação de deixar-se banhar pelo sol sem culpa. No Brasil, em vista da intensidade dos nossos raios, nunca fico muito tempo com a cara voltada para cima, penso nos raios ultravioleta, penso no câncer de pele, e no final das contas só me permito ficar de bruços para secar o corpo depois de um banho. Mas logo o que era quentura se transforma em ardência e o prazer se esvai. Aqui na Sicília, não: o vento frio soprava e o sol me acalentava. Só não entrei em alfa, ou estado de meditação, como dizem os budistas, porque ouvia os cachorros latindo e os carros que passavam de vez em quando.

          De qualquer forma, mesmo que não houvesse carros nem cachorros, eu não conseguiria deixar de pensar, minha cabeça de turista cuja vida cotidiana está suspensa por um mês fica sempre cheia de reflexões. A mais óbvia é sobre as marcas deixadas pelo Etna na Sicília, o solo cinza resultante da decomposição da lava que dizem ser muito fértil, a cor dos prédios das cidades. Diz a lenda que o filósofo Empédocles teria se matado jogando-se na cratera do Etna para tornar-se imortal: dê-se à natureza antes que ela leve você! O que certamente o famoso siciliano conseguiu foi evaporar-se no calor de 1.000 graus Celsius. A última grande erupção realmente destrutiva ocorreu em março de 1669 e destruiu dez vilas. Havendo atividade vulcânica isso significa que há terremotos também, claro,aliás a Sicília encontra-se no ponto em que a Placa (i.e. placa tectônica) Africana se encontra com a Placa Eurasiana. O pior terremoto da história da Itália foi o de 1693, que atingiu magnitude 7,4. Na quinta-feira passada, dia 27 de fevereiro, visitei uma cidade, que hoje é patrimônio histórico da humanidade, Noto, totalmente reconstruída, a partir de 1703, depois do terremoto, em um estilo barroco tardio.

        Mas não são só os desastres naturais que eu me vejo contemplando aqui na Sicília. Há também os desastres produzidos pelo homem, e o principal deles talvez seja a guerra. Um testemunho disso está em Siracusa, cidade que hospedou-me por quatro dias em Ortígia, ilha onde ela nasceu e onde fiquei em um pequeno apartamento com vista para o Mar Jônico. A principal atração da cidade é o parque arqueológico chamado de Neápolis, onde vê-se o teatro grego em que Ésquilo estreou sua peça Os Persas e As Mulheres de Atenas. Ainda hoje encenam-se peças neste teatro no verão. Há outra construção no parque que ao contrário do teatro, rende homenagem à face negra do ser humano. Já no século VI antes de Cristo explorava-se no local uma pedreira, denominada Latomia del Paradiso. Em 427 e 415 a.C. Atenas mandou expedições contra Siracusa, mas esta derrotou os invasores tanto em terra quanto no mar. Os atenienses perdedores foram feitos escravos e trabalharam na pedreira, o que deve ter sido particularmente duro, considerando que na Sicília o verão registra temperaturas de 40 graus Celsius. Pois bem, uma das obras feitas à custa de trabalho forçado é uma caverna artificial, a Orelha de Dionísio, que tem uma excelente acústica.

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         Prezados leitores, Siracusa remeteu-me à Guerra do Peloponeso, descrita por Tucídides e aos mesmo tempo fez-me refletir sobre mais uma guerra que se avizinha e que talvez possa atingir grandes proporções, envolvendo vários países. Falo da Ucrânia e na mobilização de tropas na Crimeia (dada à Ucrânia em 1954 por Khrushchev) a mando de Putin. Não vou aqui tomar partido a favor da Rússia ou dos Estados Unidos, porque não há santos aqui.Os Estados Unidos estão há anos financiando ONGs para fomentar a oposição em países que faziam parte da União Soviética com o objetivo de trazê-los para a zona de influência do Ocidente. A Rússia, por sua vez, tem um histórico imperial e como todo império já massacrou muitas nacionalidades, etnias. O fato é que a Ucrânia é o palco das disputas e como é um país quebrado, sem poder de barganha, terá que acatar ordens.

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     Ao contrário da Suíça, que no começo de fevereiro depois de seu não à imigração de cidadãos europeus foi ameaçada de “excomunhão” pela União Europeia, mas como a Alemanha depende da eletricidade comprada da Confederação Helvética para não gelar no inverno, na prática o que eram promessas de vingança transformaram-se em negociações a serem realizadas. Se Putin cortar o fornecimento de gás da Ucrânia, o país morre de frio, como defender os interesses nacionais, quaisquer que sejam eles, em tal posição? Talvez a essa altura, a melhor solução seja que o país seja dividido, o Leste que é habitado majoritariamente por pessoas de origem russa voltaria à Rússia, e a parte Oeste ficaria melhor na esfera de influênciado Ocidente, pois tem seus produtos agrícolas para oferecer no mercado comum europeu. Esperemos pelo menor número de desastres possível neste ano de 2014, que marca os 100 anos do começo da Primeira Grande Guerra, iniciada por um episódio no Leste Europeu, em Sarajevo. Que as coincidências parem por aí.

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Apenas uma turista latino-americana

       Prezados leitores, meu Grand Tour continua. Mas, ao contrário da elite europeia que no século XVIII tinha seu séquito de assistentes para preparar a logística das operações (hospedagem, transporte e alimentação), sou apenas uma garota latino-americana sem parentes importantes, parafraseando a música de Belchior, e por isso sou eu mesma quem tem que se encarregar dos arranjos, aliás compartilho as tarefas com meu companheiro de viagem, responsável pelo transporte e pela programação. O ideal, claro, é sempre ter um orçamento folgado o suficiente para alugar um carro, hospedar-se em hotel, comer em restaurantes, de forma que a diversão seja total. Isso é possível somente a uma pequena minoria de turistas que circulam pelo mundo. A maioria é composta de pessoas de classe média que devem ater-se a um orçamento, que não comporta esses três tipos de luxo, provavelmente apenas um deles.

          No meu caso, meu dinheiro permite apenas que uma vez por dia eu coma um lanche fora para matar a fome durante o dia, sempre exaustivo para o turista que anda quilômetros em museus, em parques e pelas cidades. Isso significa gastar no máximo 8 euros por pessoa, ao redor de 27 reais, e preparar a verdadeira refeição em casa, o que significa depois ter de lavar a louça, limpar o fogão, varrer o chão e vocês sabem mais o que. Se fossêmos comer duas vezes ao longo do dia em restaurantes, gastaríamos 30 euros no mínimo por pessoa (o menu turístico mais barato fica em torno de 15 euros ou 51 reais). Gastar 100 reais por dia com comida não dá, além do que passaríamos fome:afinal, este menu turístico nunca é uma lauta refeição de encher a pança. Portanto, leitores, devo confessar a vocês que meu contato com a culinária italiana, ou melhor siciliana, é, e será até o fim da minha viagem, limitado a experimentar os doces divinos de amêndoa e pistache que são a especialidade da região e que são acessíveis ao bolso de uma pobre garota tropical como eu. É uma pena, mas é preciso estabelecer prioridades.

       E a prioridade do turista mediano é sempre conhecer o maior número de lugares possível, pelo menos fazer o básico aconselhado pelos guias, o que inclui visitar os locais declarados patrimônio histórico da humanidade. Aqui a dependência de transporte público é muitas vezes frustrante. A Itália está em crise, e por isso cortando gastos. Isso na prática significa que há museus fechados, para grande consternação minha, o museu arqueológico de Palermo, um dos mais importantes do país, está fechado para “reformas” – eufemismo para indicar a falta de dotação orçamentária para mantê-lo aberto  –, e pior, sem prazo para voltar a funcionar. Há outros casos de museus fechados, mas o pior de tudo é quando as linhas de ônibus ou trem são desativadas ou simplesmente não existem. Para ilustrar o problema vou contar-lhes o drama turístico por que passei no sábado dia 22.

        Seguindo as orientações do Baedecker, tínhamos decidido conhecer Enna, uma cidade situada a 931 metros de altitude com uma vista privilegiada do interior da Sicília. A cidade tem castelos, igrejas e um museu arqueológico ainda aberto ao público. Pois bem, de acordo com as informações que obtivemos em nosso “Rough Guide to Sicily”, haveria um ônibus que passava na estação de trem da cidade, distante 4 quilômetros do centro. Chegamos exatamente ao meio dia em Enna,e para encurtar a história, devo lhes dizer que não há mais linha de transporte ligando a estação à cidade, e só conseguimos chegar a ela duas horas mais tarde, depois de ficarmos andando atarantados pela estrada, ora esperando um quimérico ônibus que nunca vinha e nunca viria, ora pateticamente pedindo carona. Já desacorçoados, decidimos ir andando pela estrada, com o guia na mão, e um homem apiedou-se de dois turistas perdidos recolhendo-nos no seu carro. O pior estava por vir. Ao chegarmos à cidade, como o trem partia às 15:39, decidimos ir atrás de comprar passagem de ônibus para podermos ter mais tempo de conhecer a dita cuja. No entanto, Enna é praticamente morta num sábado à tarde, e a estação de ônibus estava fechada. Quando conseguimos encontrar uma paticceria aberta, quase às três horas, contamos com a ajuda inestimável do dono, que chamou um táxi para nos levar de volta à estação de trem. O taxista explicou-nos que quem manda na cidade não quer que haja turistas em Enna, quer que ela seja unicamente uma cidade dormitório. Será a Máfia que não quer? Pode ser, certamente turistas que dependem de transporte público são banidos, talvez os mafiosos só apreciem turistas finos. No final, gastamos 30 euros de passagem mais 15 de táxi para absolutamente nada, não vimos nenhuma das atrações da cidade. Nosso único consolo foi contemplar da janelado trem a paisagem lindissíma do campo nesse prenúncio de primavera.

       Outra grande frustração do turista de orçamento já todo comprometido, como diria um dos nossos tecnocratas, é nem poder chegar a um lugar que o guia coloca como um must. É o caso de Villa Romana del Casale, onde há mosaicos romanos realizados no século III, não se sabe por quem. Simplesmente não há trem ou ônibus de Agringento, onde nós estamos, e que fica próxima à cidade. Os únicos ônibus disponíveis partem de Catânia, a três horas daqui, seria impossível fazermos um passeio de um dia. E mesmo se fosse possível, talvez sacrificássemos os mosaicos para não passarmos de novo por Catânia. Esta cidade, recebeu duas estrelas de um dos nosso três guias e para lá fomos. Qual foi meu choque quando me vi em um lugar que, à exceção da Piazza Duomo, parecia o Pari, um bairro de São Paulo, em que o antigo é sumplesmente decrépito. Tivemos que passar lá um dia inteiro, lamentando a infelicidade de não ter um carro próprio para picar a mula de uma cidade que foi muito bombardeada na Segunda Guerra Mundial e perdeu muito dos seus prédios históricos. Aliás leitores, foi em Licata e Gela, cidades litorâneas que tive o prazer de conhecer nesta última semana, que os Aliados desembarcaram na Itália. Vêem-se ainda algumas casamatas dos alemães nos morros com vista para o mar.

        Para finalizar minhas lamúrias, devo dizer que há um lugar a mais que eu sonhara em conhecer, mas que ficará para as calendas, pela falta de transporte próprio. Sou fã do filme O Leopardo, de Luchino Visconti, e estava doida para conhecer o Castelazzo di Montechiaro, em Palma de Montechiaro, construído pelo Príncipe Carlo Tomasi di Lampedusa, antepassado de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, o autor do livro. Visconti fez parte das filmagens lá e quando decidi vir para a Sicília, meu primeiro desejo foi entrar na atmosfera do filme e do livro visitando o local. Vão-se os anéis, ficam-se os dedos. Quem sabe minhas frustrações sejam um motivo para voltar aqui em outra oportunidade e preencher as lacunas? Afinal, uma garota latino-americana sem dinheiro no bolso pode se transformar em uma emergente cheia do dinheiro!

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