Dúvidas existenciais

                Há várias coisas neste mundo que me intrigam e gostaria de compartilhar minha perplexidade com vocês leitores do Montblatt, por meio de perguntas. Aqui vão elas:

                Por que eu devo me sentir inferiorizada por não ser fã incondicional da tecnologia?

           Essa pergunta sempre me vem à mente quando alguém faz questão de se mostrar superior a mim porque está mais antenado com as últimas novidades tecnológicas. Há alguns anos uma amiga gozou da minha cara quando saquei da minha bolsa um celular de 99 reais e me incitou a comprar outro, porque um celular daquele “não dava”. Claro, ela tinha um aparelho melhor do que o meu, mas em compensação eu tinha e tenho emprego com carteira assinada, benefícios trabalhistas e todas “as regalias” que querem tirar de mim para aumentar nossa competitividade. Minha amiga mais bem equipada tecnologicamente vendia biscoitos em uma feira em Moema aos domingos. Quem é mais moderna, eu ou ela, que literalmente não tem onde cair morta?

           Mas o pior para mim é quando falam que a geração Y é mais inteligente, ou melhor, “tem mais conexões neuronais” porque sabe tudo de computador. Ouço isso de psicólogos e tenho calafrios. O que vejo na faculdade é que alguns membros da geração Y utilizam seus conhecimentos para ficar navegando no facebook durante a aula, incapazes de prestar atenção ao que o professor fala. Se inteligência hoje em dia significa saber pular de uma janela a outrado notebook sem conseguir concentrar a mente e colocá-la para realizar algo eu prefiro ser analfabeta tecnológica.

            Por que exigir a manutenção de certos padrões é considerado algo elitista e ruim?

         Na semana passada eu assisti a uma palestra na empresa sobre gerenciamento do tempo dada por uma consultora de recursos humanos com duas pós-graduações. Apesar de seu alentado currículo, a mulher não colocava o plural em nenhuma palavra que o exigisse. E a apostila que nosentregou estava cheia de erros de português, os quais eu apontei a ela ao final da sua fala. Quando comentei o episódio com uma colega de trabalho, ela disse: “Na boa, acho que você está exagerando.” Fiquei a princípio me sentindo a exagerada, mas depois pensei: “Oras bolas! Já tenho que aturar ouvir falar em “time” quando não há ninguém jogando, palavrinhas-chave do mundo corporativo como “sinergia”, “alinhamento”, “budget”, “compliance”, “tomar ações” e outras pérolas do ingsoc martelado diariamente. Por que ainda tenho que ouvir alguém maltratar ainda mais minha vilipendiada língua e ainda considerar isso normal e inclusivo? Por acaso democracia é somente nivelamento por baixo ou é dar oportunidades reais a todos de desenvolverem suas potencialidades? Aliás, depois que eu apontei os erros à palestrante ela me perguntou se eu gostaria de revisar o livro que está escrevendo.

            Por que as pessoas sempre pressupõem que para tudo há um jeitinho?

        Essa pergunta me veio à mente quando um colega da faculdade hoje me relatou uma singela indagação de um amigo: “Qual o esquema para entrar na universidade pública?” Ao que ele respondeu: “Ué estudo!” É realmente impressionante como está entranhado em nossa cultura essa ideia de haver um caminho fácil para conseguir coisas que povos menos “espertos” levam décadas. Tal traço cultural se revela facilmente pela quantidade de palavras que usamos para designar o jeitinho: “esquema”, “mutreta”, “mutretagem”, picaretagem”, “bem bolado”, “bagulho”, “costura política”, “pacto nacional”, “flexibilização” e por aí vai. Não admira que entra governo e sai governo no Brasil e cortes pontuais de tributos sejam considerados política industrial, fazer a corda arrebentar do lado mais fraco, o dos trabalhadores, vire política de fomento à competitividade, e dar uns trocados para que a pessoa não passe fome vire política social. Enquanto isso as famílias continuam inviabilizadas pela falta de oportunidades de qualificação e emprego, a indústria continua sendo desmantelada por falta de infraestrutura física e humana e a economia cresce a taxas muito menores do que é o necessário para o país mudar de patamar de desenvolvimento.

          Por que é tão difícil às pessoas pensar de maneira não maniqueísta?

         No sábado passado fiquei o dia inteiro em treinamento para a empresa sob a batuta de um ex-palhaço que nos levou a um orfanato fora de São Paulo e nos fez fazer trabalho “voluntário” para melhorar as instalações das crianças. Nos intervalos ele falava de quanto estava feliz em imaginar a alegria das crianças quando vissem tudo bonito, chorou várias vezes e chamava a mulher dele no palco com a filha de colo para mostrar seu lado família. Tudo, claro, seguindo o script ditado pela empresa para nos inculcar os valores de trabalho em grupo, colaboração, espírito de equipe e de doação e, mais importante, nos orgulharmos de trabalharmos em uma empresa socialmente responsável.Eu comentava isso com uma colega (outra) e ela retrucou que “não achava que ele estava mentindo”. Eu então esclareci que não o achava um mentiroso, apenas um hábil palestrante que se utilizava de certas armas (causar comoção e empatia) para atingir determinados objetivos. Meu intelectualismo claro só piorou as coisas e ela se calou sem querer conversdar comigo.

        O fato é que ao menos coletivamente somos bipolares em nossas escolhas: ou é Fla ou é Flu, ou é PSDB ou é o PT, ou é monetarismo ou é desenvolvimentismo, ou é direita ou é esquerda,ou é conservador cruel e reacionário ou é progressista sensível, ou é política externa independente ou é vassalagem ao imperialismo, ou é imprensa golpista ou imprensa chapa branca, ou é evangélico fundamentalista ou é ateu militante, entre tantas outras polêmicas. Esses maniqueísmos definitivamente não nos ajudam em nada a resolvermos nossos problemas porque ficamos obcecados em destruir o outro e fazer valer nossas certezas ideológicas.

       Bem, essas são algumas das minhas dúvidas existenciais. Eu apenas expus o problema e agradeço se alguém me der uma resposta não maniqueísta, reta e em bom português a alguma delas.

Categories: O espírito da época | Tags: , , , | 1 Comment

Obama, o negro de alma branca

         Prezados leitores do Montblatt, nesta semana de eleições municipais eu talvez como brasileira deveria estar aqui analisando os candidatos a prefeito da minha cidade, São Paulo, mas a verdade é que não tenho nada a acrescentar ao que o editor já falou aqui. Portanto, faço uma opção de falar das eleições presidenciais americanas, que ocorrerão em 6 de novembro. Haveria um motivo óbvio porque os Estados Unidos exercem uma grande influência no mundo e portanto nós, que historicamente temos estado sob as garras da água americana, devemos prestar atenção ao que ocorre lá. No entanto, tenho uma especial predileção por falar desse assunto porque eu sempre me espanto e me irrito com o fato de Barack Obama ser uma unanimidade para todo mundo, isto é, ele é sempre o mocinho da história. Como quem me lê sabe que sou rabugenta deixem-me desconstruir um pouco, nos limites dos meus poderes, a figura mítica do primeiro Afro-Americano que chegou lá.

         Por favor, não me entendam mal.Pensando como uma cidadã do mundo, a eleição do Prêmio Nobel da Paz seria menos pior do que a de Mitt Romney, pela simples razão que se o presidente americano é rendido ao lobby de Israel, o candidato mórmon é mais ainda, não perdendo nenhuma oportunidade de puxar o saco do Benjamin Netanyahu, o psicopata primeiro-ministro da Terra Prometida que não vai sossegar enquanto não conseguir arranjar uma guerra com o Irã. Como tenho medo de que isso deflagre uma Terceira Guerra Mundial, eu tenho a tênue esperança que Obama ao menos reflita um pouco antes de obedecer aos comandos dos falcões que querem a presença militar dos Estados Unidos em todos os recantos do planeta. É verdade que ele não fechou Guantanamo, como prometera, inteferiu na Líbia para depor Khadafi, que antes era amigo dos EUA, e está financiando os rebeldes na Síria por motivos muito mais escusos do que a defesa da democracia. De qualquer forma, a situação é tão dramática ante o imperialismo crescente dos Estados Unidos, na exata medida da sua decadência econômica, quepor mais que Obama tenha mudado muito pouco de fato a política externa americana, ele é menos histérico do que seria um republicano na presidência.

       Feita essa ressalva, dedicar-me-ei agora a levantar alguns fatos sobre a presidência do Senhor Barack para chegar a algumas conclusões sobre o que há de substância nas atividades presidenciais do príncipe Afro-Americano, eleito em 2008 com os votos de 96% dos negros americanos. Essa esmagadora adesão se deveu a uma identificação de raça que ele conseguiu de maneira brilhante consolidar ao longo de sua carreira política. Apesar de ter crescido com seus avós brancos e nunca ter vivido em guetos ou ter tido uma experiência real de vida em meio aos Afro-Americanos, Obama sempre se colocou como negro, beneficiando-se da boa vontade que isso poderia lhe angariar em nossos tempos politicamente corretos. Casou com uma negra 100% e fez largo uso do sistema de ação afirmativa para frequentar universidades de elite.Yes, we can, entoavam os negros em 2008 esperançosos com a possibilidade de ter um deles, mesmo que fosse um mulato, na Casa Branca. Infelizmente, os quatro anos da presidência de Obama não trouxeram nenhum benefício a seu eleitorado cativo.

         Em junho de 2012a taxa de desemprego dos Afro- Americanos era de 14,4%, face aos 11% dos latinos e hispânicos e aos 7,4% dos brancos. Em comparação com dezembro de 2008, o último mês final antes de Barack Obama adentrar o Salão Oval Oval Office, a taxa de desemprego dos brancos era de 9,2%, a dos negros era de 11,9%. Para resumir esses números pode-se dizer que um em cada sete Afro-Americanos está atualmente desempregado. Além disso, no período entre 2009 e 2011, os trabalhadoresnegros que ganham salário mínimo aumentaram 16,6%, ao passo que somente 5,2% mais trabalhadores brancos passaram a ganhar salário mínimo. Em suma, se havia uma desigualdade econômica e social entre negros e brancos antes de Obama ela só piorou sob seu reinado. As mazelas que atingem a comunidade negra ­ reveladas pelo fato de que menos de 40% das crianças negras viverem comambos os pais, de que as crianças negras tem sete vezes mais chance de ter um dos pais na prisão e de que mais de 70% das crianças negras nascem de mães solteiras­ continuam firmes e fortes. Os defensores de Obama dirão que tais problemas são seculares e ele não pode ser cobrado por isso. Oras bolas, mas o lema da campanha dele não era “Yes, we can!”?

       Bem, dirão os Obamites, Obamaé o presidente de todos os americanos, e sua principal façanha neste primeiro mandato foi a de assinar a lei que proporciona assistência médica a todos os americanos, indo contra a direita que quer cortar benefícios sociais. É verdade que agora a lei dita Obamacareprevê cobertura de saúde a todos, mas isso será feito obrigando todos os americanos (obrigar é a palavraporque haverá a fiscalização por parte de 16.500 funcionários da Receita Federal dos Estados Unidos, conhecida pela sigla IRS) a contratarem um plano de saúde privado. Isso vai dar de mão beijada às seguradoras mais 50 milhões de consumidores e o dinheiro que será descontado na fonte dos trabalhores servirá antes de mais nada para engordar os lucros dessas empresas e os bônus dos seus executivos. Se quiserem saber a quantas anda a medicina na terra do Tio Sam (e o que nos espera daqui a alguns anos, quando tudo estiver privatizado aqui no Brasil), leiam por favor o artigo deum médico oftalmologista americano, Robert Dotson, que fechou seu consultório porque as despesas com advogados, contadores e consultores necessárias para prestar contas aos planos de saúde e para se proteger contra ações judiciais são maiores do que os rendimentos cada vez mais magros (http://www.paulcraigroberts.org/2012/08/02/reflections-medical-career-robert-s-dotson-m-d/). Hoje nos Estados Unidos operar catarata em cachorro paga mais do que fazê-lo em um ser humano.

         Essas breves pinceladas no que foi de fato a presidência de Barack Obamapermitem ver como hoje é difícil termos líderes políticos que não sejam meras celebridades movidas a factóides. Longe do mito propagandeado pela mídia, este negro de alma branca continuou a política de George Bush de ajuda aos bancos e não fez nada para enfrentar os problemas estruturais da economia americana, a saber a desindustrialização do país devido à transferência da produção das multinacionais americanas para locais mais baratos principalmente na China e Índia. Mas a aura que se construiu em torno do príncipe será dificilmente destruída em vista da falta de alternativas. Entre o mórmon que quer intensificar ainda mais as ações militares do EUA no mundo muçulmano e o negro de alma branca que joga para a plateia de aficcionados, talvez a antipatia mútua entre o louco do Bibi e Obama seja o melhor que o mundo possa desejarneste momento.

Categories: Internacional | Tags: , , , , | Leave a comment

Mais rabugices

      Meus caros leitores do Montblatt, nosso editor sempre reclama com razão que vocês não fazem comentáriosnem positivos nem negativos a respeito dos artigos. Não há como obrigá-los a fazê-los, portanto a saída é conformar-se ou ir atrás de “fidibéqui” alhures. Foi o que fiz semana passada, quando mandei meu artigo sobre o Obama a uma amiga que coincidentemente falara sobre a biografia dele e quanto admirava sua trajetória de vida. Depois de receber meu artigo criticando o Prêmio Nobel da Paz de 2009, ela me espinafrou dizendo que eu me negava a ver qualquer qualidade nele e o nome de rabugenta vinha bem a calhar. Quando eu repliquei que me mandasse algum artigo falando dascoisas que o Obama realmente fez, e não o que ele falou, ela quis me mandar informações tiradas do twitter dele e do site da presidência. Eu agradeci e disse que essas não são fontes fidedignas porque são promocionais.

        Este intróito serve para que eu reitere minha posição rabugenta e a explique de maneira mais detalhada. Reitero minha posição porque, apesar de achar que com Romney o desastre seriamais total para o mundo, isso não exime o presidente das suas falhas. Mitt Romney já declarou expressamente que vai ajudar ainda mais os rebeldes na Síria, que vai aumentar a presença americana no Afeganistão e que vai pressionar ainda mais o Irã. Em suma ele é uma criatura do complexo industrial militar em nível mais elevado que Obama, o que não significa que o Prêmio Nobel da Paz tenha feito algo que contribuísse para acalmar os ânimos na cena mundial.

         As intervenções no Oriente Médio e na África, particularmente a derrubada de Gaddafi na Líbia e a destruição em curso do regime de Bashar al-Assad, só servem para mostrar que os EUA agem como um império, defendendo seus interesses econômicos e geopolíticos sem nenhuma preocupação com os efeitos a longo prazo em termos de aumento da violência e miséria do povo. Na Síria, um dos objetivos é atingir um dos inimigos dos EUA, a Rússia, que tem sua última base naval no Mediterâneo na costa da Síria, em Tartus. Na Líbia, Gaddafi havia se tornado ovelha negra porque ousara fazer negócios com os chineses, que exploravam petróleo no leste da Líbia. E para isso vale tudo, apoiar a Al-Qaeda, antigo inimigo número um, na Síria contra os alauitas de Assad,derrubar os sunitas de Saddam Hussein no Iraque que que os Estados Unidos haviam apoiado antes na Guerra Irã-Iraque e lutar ocntra o talibã no Afeganistão, antigo aliado contra a antiga União Soviética.

         O lema é dividir para governar, estratégia sempre bem sucedida, pois infelizmente os muçulmanos preferem continuar brigando entre si e acabam se aliando aos países do Ocidente para ganhar força contra o grupo rival.As escaramuças atuais entre Turquia e Síria, que podem fornecer a desculpa parauma intervenção da Otan na guerra civil, é um exemplo típico disso. E quem mais sofre com governos que se vendem ao Ocidente obviamente é a população muçulmana, que é a vítima cotidiana dos ataques terroristas, das intervenções militares, da indigência econômica. Em suma, o primeiro Afro-Americano a chegar lá segue os script dos seus antecessores quando o assunto é política externa e longe de se pugnar pela paz perpétua sonhada pelo filósofo Kant em 1795 a faz um instrumento desprovido de princípios e de consistência,para atingir os quedesafiam o poder americano, como a China e a Rússia.

         O fato é que esta mistura de politicamentecorreto com a face mais negra do capitalismo me faz ser uma rabugenta. O Obama usou sua “negritude” em sua carreira políticapara conseguir votos dos negros e dos brancos que se sentem culpados pela escravidão. E como ele teoricamente pertence a uma minoria está imune a ataques. Mostrem-me realizações de fato dele e serei toda ouvidos, mas não vale falar do aspecto simbólico da eleição de um negro para a presidência. Símbolos são importantes se eles galvanizam providências práticas, mas se são usados como máscaras para encobrir a inação, o indivíduo politicamente correto que fala coisas bonitas como “estender o arco da justiça” acaba pornão se diferenciar em termos de resultados efetivos deum homemque se reconhece como sendo de direita como Mitt Romney, que declarou que não espera que os 47% dos americanos que não pagam imposto de renda votarão nele, porque ele propõe o corte dos benefícios sociais.

          Leitores do Montblatt, infelizmente minha alma rabugenta tem tido muito com que se alimentar. A última é este Prêmio Nobel da Paz à União Europeia. É verdade que a União Europeia, com a ajuda dos americanos,em seu início evitou novas brigas entre países europeus. Hoje ela insufla os cidadãos contra os governos nacionais,fazendo-os descrerem da democracia com esses infindáveis e inúteis programas de austeridade. Ter paz não significa só não ser convocado para uma guerra militar, mas ter emprego, poder pagar suas contas, não viver ansioso esperando pelo pior. Perguntado sobre a concessão do prêmio pela BBC, um dos membros do movimento dos Indignados na Espanha disse que a União Européia foi uma força do bem nos primeirostempos, mas nos últimos dez anos ela é apenas um instrumento do mercado para negar direitos ao povo. Concordo em gênero, número e grau.

Chega de rabugices, semana que vem tem mais, para os que aguentam meus rompantes.

Categories: Internacional | Tags: , , , , | Leave a comment

Liberdade ainda que tardia

           No dia 15 de agosto, ocorreu um pequeno evento de que tenho certeza quase ninguém ficou sabendo, mas que em minha modesta opinião é bastante revelador do estado atual das liberdades no mais poderoso país do Ocidente, os Estados Unidos. Brandon Raub, que serviu no Iraque e no Afeganistão, foi preso pelo FBI e mandado para um hospital psiquiátricopor causa de suas opiniões divulgadas no Facebook, esta maravilhosa ferramenta de comunicação que teoricamente protege a confidencialidade dos dados dos seus usuários. Brandon Raub conversava em um chat “privado” a respeito de suas dúvidas sobre a versão oficial dos atentados de 11 de setembro de 2001 e manifestava sua simpatia pelo candidato derrotadoà indicação do Partido Republicano, Ron Paul.

           Para quem não sabe, Ron Paul é um velhinho tratado pela mídia americana como um ser lunático que defendeu em sua campanha o fim de todas as intervenções militares dos EUA pelo mundo, o fim do apoio incondicional dos EUA a Israel, e propostas libertárias, isto é, em defesa do Estado mínimo, como o fim da previdência social e do Federal Reserve, considerado por Ron Paul como o grande responsável pela completa degradação da moeda americana. Degradação esta ainda não foi percebida pelo mundo pela infindável capacidade do Federal Reserve de malabarismos financeiros, que têm permitidoao órgão encontrar compradores para os Treasury bonds americanos, a despeito do déficit público monstruoso, que está ao redor de um trilhão e trezentos bilhões.

        Não me interessa aqui discutir se o Ron Paul é um republicano insensível ou se acreditar que há muitas coisas não reveladas sobreo 11 de setembro é o mesmo que acreditar que Elvis não morreu. O meu ponto é que no país que adora dar lições de moral sobre liberdade de expressão para todos os países, especialmente aqueles que contrariam seus interesses, as pessoas que ousam externar opiniões consideradas subversivas são perseguidas e amordaçadas. Felizmente, a mãe do ex-mariner acionou logo um advogado, que conseguiu convencer o juiz que não havia motivo palpável para ele ser internado num hospital psiquiátrico. John Whitehead, o advogado, disse em entrevista que há atualmente mais de 20.000 pessoas no Estado da Virgínia, onde ocorreu o incidente, que foram internadas à força, sem acusação formal de crime. Leitores do Montblatt, para mais informações queiram, por favor consultar o seguinte sitehttp://libertycrier.com/u-s-constitution/rutherford-institute-attorneys-to-file-civil-lawsuit-over-wrongful-arrest-detention-in-psych-ward-of-marine-brandon-raub-because-of-facebook-posts/

        Realmente é algo inacreditável. Tratar pessoas como loucas é uma típica ferramenta detrabalho de ditaduras e regimes totalitários. Um caso de que eu me lembro é o de Mussolini que enfurnou sua ex-amante em um hospício, porque sua existência e a de um filho, que foi colocado em outra “casa de repouso”, manchavam sua imagem de homem de família. Os dois mofaram “em tratamento” até morrer. Por outro lado, tal tipo de arbitrariedade não é de se espantar em vista dos poderes cada vez maiores com que está sendo investido o Poder Executivo federal dos Estados Unidosa cada ano. Em 31 de dezembro de 2011 o “Presidente da Paz” Barack Obama assinou o National Defense Authorization Act, que tem como um de seus mais polêmicos dispositivos a possibilidade de detenção por tempo indefinido, sem julgamento, de pessoas acusadas de terrorismo que atentem contra a segurança nacional, inclusivo por membros das Forças Armadas. A novidade está no fato de que as pessoas incluem não só defensores da Al-Qaeda ou do Taliban, mas também cidadãos americanos em solo americano.

        Na prática, isso significa o fim do habeas corpus e do devido processo legal se o Poder Executivo,e só ele, considerar que o indivíduo está realizando atividades subversivas. Conceito propositalmente vago, que pode incluir tanto barbudos muçulmanos que explodem bombas quanto loiros da Virgínia que manifestam opiniões considerada extremistas nas redes sociais, as quais na verdade acabam sendo usadas como mecanismo de controle do cidadão pelo governo.

           Mas há pessoas de bem, intelectuais bem pensantes que ainda consideram que os Estados Unidos é um paradigma da liberdade de expressão e que qualquer acusação de que o Tio Sam está perseguindo alguém por suas opiniões é leviana e arrogante. Uma dessas pessoas é o Mario Vargas Llosa, de quem li um artigo no jornal O Estado de São Paulo, espinafrando o Julian Assange. Para o peruano a acusação de Julian, feita da sacada da Embaixada do Equador onde ele está refugiado, de que o governo americano está querendo amordaçá-lo é uma piada de um homem vaidoso, uma mera celebridade vulgar, como tantas outras por aí. Para Llosa, tal intenção malévola seria uma impossibilidade lógica, afinal países como os Estados Unidos e a Inglaterra são os principais defensores das liberdades fundamentais frente às “satrapias” orientais.

        Não estou aqui a dizer que os países muçulmanos, a China ou a Rússia sejam modelos de livre manifestação da opinião. Pelo contrário, considero que os cidadãos globaisde hoje têm cada vez menos capacidade e oportunidade de exercitar sua capacidade crítica, ameaçada por todos os lados por governos despóticos, mídias sociais que enfatizam a fofoca, a maledicência da turba, e uma quantidade infinita de informações que confudem antes de explicar. Por outro lado, considero que imunizar os países centrais do Ocidente contra qualquer tipo de ressalva a respeito daquilo que seus habitantes na prática podem e não podem dizer acaba servindo os interesses dos grupos que estão no poder e que precisam que tudo fique no lusco fusco porque têm muito a esconder.O objetivo de intelectuais como Mário Vargas Llosa, que ressaltam as virtudes ocidentais para melhor combater os vícios dos países que em pleno século XXI não adotaram um mínimo de valores liberais, acaba lhes obscurecendo a visão sobre o real estado de coisas no Ocidente.

         Por isso, em vez de optarmos por um duvidoso “menos pior”, acho que deve ser um compromisso das pessoas que consideram que o preço da liberdade é a eterna vigilância de ficarem atentas ao que os ditos modelos de democracia têm feito em nome do combate ao terrorismo. Tomando de empréstimo o lema dos nossos inconfidentes mineiros: “liberdade, ainda que tardia.”

Categories: Internacional | Tags: , , , , | Leave a comment

Olimpíadas

      Não há como deixar de falar das Olimpíadas que se desenrolam em Londres. Não vou aqui tentar explicar o porquê de o Diego Hypolito ter “amarelado” pela segunda vez, o porquê de o César Cielo ter se cansado tanto e o Michael Phelps não se cansar nunca e estar sempre abocanhando uma medalha, o porquê de as atuais campeãs olímpicas de volêi terem tido um desempenho decepcionante, blá, blá,blá. Deixo isso para os palpiteiros, que têm explicações para tudo na ponta da língua e para os psicólogos do esporte, que são igualmente palpiteiros, mas têm uma aura de autoridade científica. O que me interessa étirar algumaslições para nós brasileiros, ou melhor antever alguns problemas, já que não espero que nossa gestão do negócio das Olimpíadas vá ser melhor.

       Digo negócio porque essa história de espírito de congraçamento, de solidariedade é obviamente pura balela. Os Jogos Olímpicos são a versão moderna das lutas de gladiadores, entretenimento para as massas que obtêm alguma satisfação pessoal em ver a equipe ou o indivíduo do seu país ganhar medalhas e derrotar outros países.Isso fica claro quando levamos em conta que as pessoas torcem e assistem a disputas esportivas que normalmente não acompanham. A maioria dos espectadores é formada de pessoas que não apreciam a beleza do esporte em si mesmo, mas como um meio de conseguir uma vitória ou derrota.

        Essa fissura das massas por ver sangue na arena precisa ser alimentada para que o show possa continuar. Se na arena romana era preciso colocar animais selvagens de locais exóticos, simular batalhas navais, hoje é preciso haver uma constante quebra de recordes para manter a plebe colada na televisão. Ora como se faz isso, considerando que a evolução genética do homem é lenta demais em comparação à instantaneidade da transmissão via satélite? Ora, todos sabem, a resposta é ululantemente óbvia: dar uma ajudinha artificial, na forma do doping. Alguns dirão que até agora ninguém foi pego e que os controles prévios e as ameaças de sanção estão sendo eficazes. Provavelmente, ao menos as substâncias que melhoram o desempenho estão sendo ministradas de maneira mais sutil, assim mantemos as aparências para que o Barão de Cubertin não se revire no caixão…

        De qualquer forma, o segredo de qualquer negócio é a contante inovação.O negócio das Olimpíadas cria novos produtos, ou pelo menos os recicla a cada quatro anos e neste ano as atrações incluem: o nadador prodígio ganhador de 17 medalhas (o nome todo mundo já sabe), a menina que venceu o trauma do abuso sexual e tornou-se campeã olímpica (Kayla Harrison no judô que derrotou a brasileira), a primeira negra a ser a melhor na ginástica, tradicional reduto de brancos privilegiados (Gabby Douglas), e por aí vai.

      Um negócio bem azeitado sem dúvida. Mas será que as Olimpíadas mostram o melhor do capitalismo?. Empredendedores se arriscando e criando para obter lucro? Infelizmente, os Jogos quase sempre mostram a pior face do nosso sistema econômico: aquela em que osvirtuosos homens de negócio entram com o “corpinho sarado” e os contribuintes entram com o dindin, construindo a infraestrutura. Os Jogos de Londres, que se desenrolam no país que foi o berço do capitalismo tal como o conhecemos hoje, é o exemplo típico. Orçado inicialmente em 2,4 bilhões de libras esterlinas, passou em 2007 para 2,7 bilhões. Em abril deste ano o comitê de contas públicas do parlamento britânico revelou que os custos estavam em torno de 11 bilhões, enquanto as más línguas colocaram am cifra em 24 bilhões de libras esterlinas. Meu bolso treme quando eu penso no superfaturamento que vai ocorrer no Brasil e no mico que será deixado para nós contribuintes. Sim, porque em Londres a participação da iniciativa privada foi de menos de 2% do que foi gasto. A vila olímpica seriaconstruída por uma empresa australiana, Lend Lease, mas com a crise imobiliária de 2008 ela saltou fora e o Estado teve que arcar com tudo.

      No caso do Reino Unido, esse tudo incluiu até despachar soldados para cumprir a importante tarefa cívica de ocupar estádios vazios. Ora, se Londres, que está a um pulo da Europa Continental, não consegue atrair espectadores, mesmo com o Reino Unido sendo o terceiro país mais admirado no mundo de acordo com o Anholt-GfK Roper Nation Brands Index,que dirá o Brasil, que ocupa a vigésima posição em um univeros pesquisado de 50 nações? Corremos o risco de termos que convocar não só o Exército oficial, mas o paralelo, formado pelo Comando Vermelho, O Primeiro Comando daCapital, as milícias etc e tal.

         Bem, para não dizer que sou totalmente pessimista, acho que uma coisa poderemos fazer melhor: a cerimônia de abertura. Aquela história condensada do Reino Unido, que jogou no lixo pelo menos 1000 anos de história e partiu da Revolução Industrial, não precisa ser repetida aqui: afinal, temos apenas um pouco mais de 500 anos, e portanto poderemos ser mais fiéis aos fatos sem cansar os espectadores, para cuja maioria o passado é apenas o que já passou e portanto já deletado. A cara catatônica da Rainha durante a cerimônia, que mal escondia seu desgosto com a música pop, o paraquedas, e toda aquela parafernália pirotécnica,traduz o estado de espírito de uma rabugenta como eu que acha que a Copa e os Jogos Olímpicos serão a maior furada em que o Brasil terá se metido, mil vezes pior que Brasília, Angra I ou a Transamazônica.Caros leitores do Montblatt, torçam para que possam daqui a quatro anos me fazer morder a língua por todo o meu catastrofismo, e que os Jogos do Rio de Janeiro sejam uma oportunidade de edificação moral, cultural e econômica como os de Londres não tem sido.

Categories: Esportes | Tags: , , , , | Leave a comment