As Joias da Coroa

Então a pergunta é: por que esta teoria econômica porcaria continua a vigorar por décadas a fio? A razão é porque os empréstimos são feitos à Grécia precisamente porque a Grécia não pode pagar. Quando um país não consegue pagar as regras do FMI e da UE e os banqueiros alemães por trás deles dizem: não se preocupe, nós vamos insistir que vocês vendam os bens públicos. Vendas as terras, o transporte público, os portos, as instalações elétricas. Esse é um programa que tem sido executado há décadas.

Trecho do artigo intitulado “Maus Credores fazem maus empréstimos” da entrevista dada pelo economista Michael Hudson a Sharmini Peries em 17 de fevereiro

Os investidores privados estão vendendo seus títulos da dívida pública de Portugal e da Itália para o Banco Central Europeu com lucro e investem os ganhos em fundos mútuos na Alemanha e em Luxemburgo. “O que isso mostra basicamente é que a união monetária está desintegrando-se lentamente a despeito do enorme esforço de Mario Draghi, ” afirma um ex-presidente do BCE. Só o Banca d’Italia deve agora 364 bilhões de euros ao BCE e as cifras continuam a aumentar.

Trecho retirado do artigo intitulado “Dívidas impagáveis e uma crise financeira existencial da EU – a derrocada do euro agora é inevitável? Do jornalista econômico inglês Ambrose Evans-Pritchard publicado em 23 de fevereiro

    Prezados leitores, no próximo verão a Grécia precisa fazer um pagamento de 10 bilhões e meio de euros, mas como não consegue sair da estagnação econômica não terá dinheiro e precisará de uma outra parte do pacote de ajuda financeira de 86 bilhões de euros que lhe foi oferecido pela troika europeia. Vai utilizar esse outro naco para pagar juros da sua monstruosa dívida. Em suma, essa tal de ajuda não é para o povo grego recuperar-se, para investimentos na economia grega que gerem empregos e criem um novo ciclo de crescimento, do qual a população precisa desesperadamente. É para pagar os juros da dívida. O país está em um beco sem saída: quanto mais recebe ajuda para honrar seus compromissos financeiros internacionais mais números negativos acumula: de acordo com os dados da CIA, em 2014 o país cresceu 0,7%. Em 2015 a economia encolheu 0,2% em 2016 o crescimento foi de 0,1%, o que não é nada. A taxa de desemprego foi de 25% em 2016.

    Menciono a Grécia mais uma vez neste meu humilde espaço porque houve Jogos Olímpicos lá em 2004, como aqui em 2016 e lá, depois de mais de dez anos os gregos referem-se aos elefantes-branco das Olímpiadas como as novas ruínas da Grécia. As arquibancadas enferrujadas, os assentos arrancados, o mato na areia onde foram disputados os jogos do vôlei de praia, as piscinas cheias de lodo e lixo, o teto do Estádio Olímpico que está ponto de cair são contrapostos pela população desencantada às gloriosas ruínas da Antiguidade, esteio da indústria de serviços que responde por 72% do PIB do país. É claro que seria tolice atribuir todas as trapalhadas feitas nas finanças pública da Grécia à realização dos Jogos Olímpicos, mas essa falta de legado, representada por instalações que custaram nove bilhões de euros e que em grande parte hoje estão se deteriorando, serve de símbolo dos erros na escolha das prioridades governamentais.

    Será que o Rio de Janeiro e por extensão o Brasil, já que a falência do governo carioca será custeada em última análise por todos nós brasileiros, seguirá a mesma trilha dos gregos? Será que a Cidade Maravilhosa ficará como Atenas povoada de esqueletos olímpicos e ficará por décadas a fio arcando com uma dívida monstruosa? Pior, será que essa vulnerabilidade financeira fará com que nós brasileiros fiquemos inapelavelmente nas mãos dos banqueiros e tenhamos que vender todas as joias da coroa pública? Na semana passada a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou a privatização da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (CEDAE) para aliviar a situação fiscal do Estado. A CEDAE presta um serviço público, cuja importância não precisa ser descrita.

    É verdade que ao menos os nobres deputados garantiram uma tarifa social para a população de baixa renda. No entanto, será que a população fluminense não tem motivos para preocupar-se com tal transferência para a iniciativa privada, considerando que a própria Agência Nacional de Água já admitiu em um workshop realizado em março de 2015 que o Sudeste vive escassez hídrica? O que acontecerá quando passarmos por um novo período de falta de chuvas, como ocorreu em 2014, e for necessário tomar decisões sobre a prioridade de acesso à água? Qual será o critério que uma empresa privada utilizará para oferecer um bem escasso e essencial ao mercado? A ANA conseguirá garantir que haja um equilíbrio entre o objetivo de lucro do novo proprietário da CEDAE e as necessidades de uma população sedenta? Ou no final das contas nós contribuintes seremos chamados a garantir os lucros do novo dono e o acesso à água por quem precisa? Veremos daqui a alguns anos.

    Ser um devedor crônico que precisa rolar sua dívida constantemente e precisa fazer concessões cada vez maiores em proporção ao aumento exponencial do passivo traz essas consequências. Nossa imprensa, assim como não nos alerta sobre os riscos de ficarmos nas mãos dos credores da dívida pública brasileira, não nos informa sobre a real situação da União Europeia, que na prática transformou-se num grande cassino. Atualmente os investidores privados estão com medo de quebradeira nos países do Clube Med, Portugal, Espanha, Itália, França além da Grécia. O spread entre os títulos da dívida pública da Alemanha e dos países do Clube Med está cada vez mais alto, de acordo com o artigo citado no início deste artigo, o que significa que fica cada vez mais caro para os meridionais rolarem suas dívidas.

    Claro que eles sempre conseguirão tomar emprestado, afinal os banqueiros estão aí para isso, mas será preciso penhorar e vender cada vez mais bens públicos, o que inclui o bem-estar econômico da população. Os investidores, que lucram investindo em papéis de risco emitidos pelos países à beira da insolvência e repassando-os ao Banco Central Europeu quando querem realizar lucros, empurram a conta em última análise para os contribuintes. Estes são chamados a arcar com as medidas de austeridade (aumento de impostos, diminuição de benefícios sociais, aumento do desemprego) impostas aos governos pelas autoridades monetárias da União Europeia para garantir que haja um fluxo aceitável de pagamento de juros da dívida pública.

    Em tal cenário, não é de admirar que estejam surgindo políticos que a imprensa chama pejorativamente de populistas, como Beppe Grillo na Itália e Marine Le Pen na França. Os populistas são aqueles que, empurrados pelos votos que conquistam nas urnas, conseguem incluir na agenda política assuntos que são motivo de preocupação da população em geral, mas são deliberadamente ignorados pelas elites porque tratá-los não lhes serve os interesses. Os sacrifícios a que a população do sul da Europa está sendo submetida para manter o euro é um desses assuntos tabu. Até que ponto as pessoas tolerarão ver seus bens mais preciosos sendo dados aos credores?

    Eu, como brasileira que desde a década de 80 vi o Brasil render-se de uma maneira ou de outra aos credores da dívida, e entregar as joias da Coroa, só digo uma coisa aos portugueses, espanhóis, gregos, italianos e franceses: bem-vindos ao clube dos sacrificados!

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Rir é fundamental

E eu tenho uma grande quantidade de praticamente tudo. Advogados, dinheiro, culhões, tudo o que vier a sua cabeça eu tenho. Acredite, não queira entrar em uma briga comigo. Porque você vai acabar na Vila dos Perdedores. Disseram para mim que vocês têm uma Vila dos Perdedores aqui na Rússia? O Atol Gulag ou algo parecido? Tanto faz. Ainda funciona? Espero que sim. É melhor colocar todos os perdedores juntos, fora da vista. No final, eles ficam mais felizes.

Trecho retirado do artigo “When the Donald met the Vlad” do escritor Christopher Buckley, a respeito de um hipotético encontro entre os Presidentes da Rússia e dos Estados Unidos

O humor desempenha um papel fundamental na honestidade também. Permite às pessoas ‘mostrarem ser inteligentes sem ser nerds’ e tem como alvos naturais o dogma, o absolutismo e o auto engrandecimento. De maneira ainda mais mágica, ele cria um universo paralelo em que as pessoas ou grupos podem mudar de ideia, admitir suas falhas ou falar a verdade aos poderosos (como os bobos da corte) sem as consequências funestas em termos de reputação ou de formação de tribos que ocorrem no mundo real, não engraçado.

Trecho retirado do artigo “Healthy ridicule” a respeito de um festival a ser realizado na Irlanda na cidade de Kilkenny de 9 a 12 de novembro de 2017 chamado de Kilkenomics que pretende juntar a economia e a comédia

    Prezados leitores, não deixem de ler a transcrição da conversa íntima entre Donald e Vlad, é de chorar de rir. Coloquem no Google o nome do autor e do título, conforme mencionados na abertura deste artigo. É um humor de primeira grandeza, porque apresenta as características de Donald Trump de maneira serena, sem apelações, sem ódio, o que faz com que seja diversão garantida para pessoas de todos os quadrantes ideológicos. Mostra seus cacoetes linguísticos, seu narcisismo, seu otimismo inveterado, sua certeza sobre tudo (inclusive sobre o fato de que o mundo se divide em ganhadores e perdedores e de que ele próprio pertence ao primeiro grupo) e seu provincianismo americano triunfante (ou como dizem os próprios americanos, o caráter excepcional da Nação mais importante da face da Terra), demonstrado quando ele pede ao líder russo, que lhe oferece caviar, para dar-lhe frango frito da rede KFC, como se os dois tipos de comida estivessem no mesmo patamar gastronômico. Caviar quem usa é a esposa Melania, para fazer máscara facial no filho Barron e evitar espinhas no menino que idolatra Putin e tem um pôster do líder russo em seu quarto na Trump Tower. Em suma, a qualidade da diatribe está na sua capacidade de revelar a personalidade do homem de maneira que pessoas como eu, que não descartam Trump como um palhaço fascista e torcem para que ele dê certo

    Uma pena que tal tipo de humor seja raro, e no mais das vezes a internet e as mídias sociais pululam com piadinhas de mau gosto ou caricaturas toscas que só são interessantes para os detratores do objeto do escárnio. Há três semana recebi um vídeo que gozava do racismo do novo presidente americano por intermédio de um narrador de notícias holandês que falava sobre como seus conterrâneos expulsaram os espanhóis do país no século XVII. Como considero essa uma das tantas críticas rasteiras feitas ao Aprendiz não achei engraçada a rememoração da história da Holanda. Tomar medidas para proteger as fronteiras é uma das prerrogativas do chefe do Executivo nos Estados Unidos e certamente isso envolve estabelecer critérios sobre que tipo de pessoas são desejáveis. Criticar qualquer esforço de discriminação, isto é, de diferenciação, como sendo racista é presumir que os seres humanos tenham uma capacidade inata de conviver de maneira harmônica com aquilo que é diferente e que contraria suas expectativas. Isso pode ser um desejo de certos grupos, e isso pode até verificar-se na prática em certos momentos e certos lugares, mas não sempre. Em um momento em que a Europa vive as consequências da política desastrosa do Ocidente, liderado pelos Estados Unidos, no Oriente Médio e na África, que levou à destruição de vários países e provocou a migração em massa, achar que será possível aos países ricos absorver esses contingentes sem atropelos é ser bem otimista. E claro, há quem ache que é obrigação dos países ocidentais receber os refugiados políticos e econômicos do Terceiro Mundo de braços abertos, considerando as práticas colonialistas de séculos passados e seus erros recentes. Pode ser realmente uma punição exemplar à Europa e aos Estados Unidos, mas por outro lado não há como negar que é direito dos cidadãos europeus e americanos escolherem não ser imolados para expiar culpas dos seus antepassados ou culpas dos governos das últimas décadas, os quais executaram políticas externas desastrosas que serviram mais determinados grupos de interesse do que o povo em geral.

    Em suma, Donald Trump acredita muito em si mesmo, é cafona, megalomaníaco e seus discursos são pontuados por declarações parentéticas e pelo recurso retórico da aposiopese, que o leva a fazer uma afirmação sucinta e esperar pelo efeito que ela terá sobre a plateia. Por outro lado, dizer que ele é racista é ingenuidade daqueles que presumem que tudo o que a grande imprensa publica é bem apurado e objetivo, ou má fé por parte dos que se beneficiam da globalização e por isso querem que ela continue vigendo. Daí que o humor inteligente mostra o motivo por que ele é um grande comunicador e de ter conseguido arrebanhar a presidência da rainha ungida pelos sábios Hillary Clinton, e ao mesmo tempo mostra que essas mesmas qualidades podem transformar-se em defeitos se ele não souber aprender com os erros que certamente cometera e já cometeu, neófito que é na política. Trump sofreu um grande revés na semana passada com a renúncia de Michael Flynn, conselheiro de segurança nacional, que era o mais enfático defensor da paz com a Rússia. Isso mostra que as intrigas palacianas correm soltas e que aqueles interessados na presença do Império americano em todo o mundo e sempre estão fazendo de tudo para preparar a cama para o impeachment do Presidente. O Aprendiz precisa aprender logo a tornar-se profissional, se ficar enamorado de sua própria imagem de homem mais poderoso do universo poderá ser devorado pelos chacais que rondam o Narciso, à espera de qualquer deslize do mancebo. No sábado dia 18, Donald reuniu 90.000 pessoas em Melbourne na Flórida, para arregimentar a base, talvez como meio de defesa contra os que querem tirá-lo do poder no tapetão.

    Prezados leitores, a acrimônia da política americana poderá ser fichinha perto da nossa, nas eleições presidenciais de 2018, caso as tendências apontadas nas últimas pesquisas eleitorais sejam concretizadas. Os resultados da CNT/ MDA mostram Lula com 30,5% e Jair Bolsonaro com 11,3%, os únicos candidatos ou possíveis candidatos cujo desempenho melhorou. Rir será fundamental para lidarmos com um hipotético segundo turno entre o sapo barbudo e o aloprado da direita. Espero que até lá surjam humoristas na cena tupiniquim que sejam tão perspicazes como Christopher Buckley foi mostrando o macho man sorrateiro Vladimir Putin e o show man galo de briga Donald Trump partilhando uma refeição no Kremlin. Afinal, como afirmou Rory Sutherland, o humor inteligente é sempre o último refúgio de sanidade e serenidade quando as tensões estão acirradas e as opiniões dramaticamente divididas entre as diferentes tribos.

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Meu Bem Meu Mal

Civilização é o bem; barbarismo é o mal. […] E quem vai definir para mim o que são a liberdade, o despotismo, a civilização, a barbárie? E onde ficam as fronteiras entre um e outro? Na alma de quem se encontra esse critério tão inflexível do bem e do mal, para que se possam avaliar fatos confusos e fugazes? Quem tem uma inteligência tão magnífica que lhe permita abarcar todos os fatos e pesá-los, ainda que no passado imóvel? E quem já viu uma situação em que o bem e o mal não estivessem juntos?

Trecho retirado do conto “Das memórias do Príncipe D. Nekhliudov” do escritor russo Liev Tolstói

O Lula ainda tem força para catalisar a favor e contra ele todo o processo eleitoral. O que seria lamentável, tanto para o País, quanto para ele. Seria um desserviço. Porque na melhor hipótese ele ganha, potencializando essa hostilidade mesquinha que vai agredir na porta do hospital a mulher dele que estava moribunda.

Trecho de entrevista dada pelo presidenciável Ciro Gomes ao jornal O Estado de São Paulo em 13 de fevereiro

    Prezados leitores, o velório de Dona Marisa Letícia, ex-primeira dama, ocorrido no dia 4 de fevereiro, não foi lá muito divulgado na mídia escrita. Ocupou o meio dos jornais, sem destaque na primeira página ao conteúdo do discurso de Lula louvando sua esposa e aproveitando para lançar farpas contra seus inimigos. A mídia escrita não quis dar atenção porque quer que nós, eleitores brasileiros, esqueçamos o fundador do PT, quer que viremos a página, quer colocá-lo como alvo inevitável das garras de Sérgio Moro. No entanto, para quem como eu assistiu ao evento pelo youtube, não há como deixar de se admirar como o enterro transformou-se em um bem organizado ato político.

    Bem organizado não pelo fato de que havia filas bem formadas para ver a defunta, de que todos estavam quietos e compenetrados, muito pelo contrário. O cenário era de balbúrdia, todos tirando fotos, todos interrompendo os padres que tentavam rezar e Lula que falou a contragosto, como ele frisou, porque não havia pensado em falar. Digo que foi bem organizado porque atingiu um fim que nosso ex-presidente provavelmente não tinha em mente de maneira clara antes do dia 4 de fevereiro, mas que decididamente concretizou-se à medida que ele improvisava. Não sou daqueles que consideram que Lula é um grande cínico, que aproveitou a morte da mulher para lançar-se candidato a Presidente em 2018 e já tinha tudo preparado em sua mente diabólica quando começou seu elogio fúnebre depois que os padres terminaram de rezar. Considero isso sim que Lula é um grande comunicador porque é autêntico e humano. Depois de ouvi-lo sempre ficamos com a impressão de que acabamos de ouvir uma pessoa de carne e osso que tem alegrias e tristezas como todos nós, ao contrário do constitucionalista Michel Temer que falando lembra a todos os brasileiros que é um privilegiado que nunca passou necessidade na vida e que condescende às vezes em descer de sua Torre de Marfim e dar uma olhada nos problemas dos habitantes da terra do pau-brasil.

    O sapo barbudo, vestido de preto, falou do nascimento dos três filhos que teve com sua galega e de como ele nunca esteve ao lado da esposa no momento do parto porque estava sempre envolvido com a missão de construir o PT. Marisa foi fundamental para o seu sucesso justamente porque nunca reclamou de ter de cuidar da família sozinha enquanto seu marido fazia política. Uma grande mulher que morreu triste porque foi caluniada pelos inimigos de Lula, que com a morte dela lutará até o fim para vingar as afrontas que foram feitas a sua amada. Os letrados antipetistas acharão tudo isso cafona e ridículo, mas como o próprio viúvo enfatizou em sua fala, Marisa sempre lhe disse para não esquecer de onde ele tinha vindo. Lula veio do povo e ao povo sempre retornará enquanto for um animal político. No dia 4 de fevereiro, ele não falou aos que foram às ruas defender o impeachment de Dilma e a defenestração definitiva do PT. No dia 4 de fevereiro, o santo guerreiro prometeu ao seu público cativo que limpará a honra da mulher morta e da sua família, todos acusados de corrupção.

    A pergunta que vem à mente é: como ele pretende fazer essa limpeza, nas urnas eletrônicas ou na barra dos tribunais, defendendo-se das acusações do outro santo guerreiro Sérgio Moro? É cedo demais para dizermos, mas quem assistiu às pessoas gritando Olê olê olê olá Lula la Lula la, Lula la… e um dos padres pedindo a Lula descansar porque o Brasil precisa dele percebe que se nosso ex-presidente precisava de uma motivação e de um motivo plausível para candidatar-se ele pode ter achado os dois no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, quando todos que estavam lá compartilharam sua dor e mais, sua indignação ante as maquinações das elites que não gostam dele, um legítimo representante do povo brasileiro sofredor e batalhador.

    De fato, há muitos motivos para Lula e seus partidários indignarem-se e sentirem-se vítimas das elites. Há os comentários depreciativos que certos médicos fizeram nas redes sociais sobre o estado de saúde de Dona Marisa, incluindo a manifestação do desejo de que o capeta a levasse. Há os dois pesos e duas medidas do Judiciário. Moreira Franco, citado em delação premiada, foi confirmado ministro, enquanto Lula foi barrado por Gilmar Mendes por liminar. Há uma percepção de que a Lava Jato foi muito bem quando tinha como objeto os desmandos do PT, mas que agora caminha a passos mais dificultosos quando as investigações abrem-se para o amplo espectro de políticos de esquerda e de direita, incluindo membros do governo interino de Michel Temer. Houve os excessos cometidos contra Lula, como a divulgação ilegal das ligações telefônicas trocadas entre a então presidente Dilma e o seu ex-futuro ministro, ilegalidade a que os antipetistas não deram muita bola porque favorecia sua causa. A grande imprensa contribui para esse sentimento de que os critérios utilizados para julgar a administração do eminente constitucionalista são muito mais brandos do que aqueles utilizados para avaliar o desastre econômico do governo petista. A queda da inflação sob Temer é comemorada como grande vitória, assim como o limite de gastos estabelecido na Constituição, a reforma trabalhista e a reforma previdenciária. Mas tudo isso beneficia muito mais o andar de cima do que o de baixo, pois para o povo os dados relevantes são que o comércio, que normalmente emprega as pessoas de menor qualificação, cortou 182 mil vagas em 2016, e que a taxa de investimento está atualmente em 1,6% do PIB, o que torna inviável a possibilidade de recuperação significativa do nível de emprego ao menos no curto e no médio prazos.

    Prezados leitores, concordo inteiramente com Ciro Gomes que diz, claro em causa própria porque quer ser o candidato da esquerda, que a volta de Lula é algo ruim para o Brasil, porque vai incitar o Fla-Flu. Infelizmente, aqueles que subestimam a capacidade de Lula porque ele não tem diploma universitário ou que simplesmente não gostam dele ajudam na sua volta quando dão motivos para que o sapo barbudo se sinta injustamente perseguido. Afinal, ele sempre desempenhou com maestria o papel de vítima, especialmente porque de fato foi vítima, ao menos durante parte de sua vida. Entre acusá-lo ou defendê-lo, prefiro admitir, como fez o grande Tolstói, que não tenho uma régua infalível que me permita saber o que é certo e o que é errado, e embora eu não deixe de utilizar minha modesta régua para nortear minhas escolhas, consigo vislumbrar a possibilidade de que haja outras réguas tão ruins ou tão boas quanto a minha. Cada um tem seu bem e seu mal, e admitir isso é um grande passo em prol da nossa humanidade comum. Quem sabe um dia nós brasileiros cheguemos a essa epifania coletiva?

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Triângulo Amoroso ou Pas de Deux?

A Suprema Corte ela mesma é uma invenção moderna, criada no governo de Tony Blair. Seu nome engana – podendo levar-nos a confundi-la com a Suprema Corte dos Estados Unidos., que tem o poder de revogar decretos governamentais. Mas essa é a particularidade da Grã-Bretanha: não temos uma constituição escrita ou juízes que possam declarar as leis inconstitucionais. Aqui o Parlamento permanece supremo. Se ele não gostar daquilo que os juízes decidirem – nisso como em qualquer outro caso – ele pode anular uma decisão aprovando uma nova lei. Para citar as palavras sucintas e precisas que resumem a constituição da Grã-Bretanha, “O que a Rainha aprova no Parlamento é lei. ”

Trecho retirado do artigo intitulado “Brexit por um fio” do jornalista Joshua Rozenberg, publicado em 3 de dezembro

Nos Estados Unidos, ao contrário, assim como em toda democracia onde o poder legislativo ordinário sofre limitações legais, os eleitores não confinaram o exercício do poder soberano à eleição dos representantes, mas os submeteram a restrições legais. Aqui o eleitorado pode ser considerado um ‘poder legislativo extraordinário de última instância’ superior ao poder legislativo ordinário que é obrigado legalmente a respeitar as restrições constitucionais e, em caso de conflito, o Judiciário declarará o ato legislativo ordinário inválido. Aqui, então, o eleitorado é soberano e livre de todas as limitações legais…

Trecho retirado do livro “The Concept of Law”, do filósofo do direito britânico Herbert Lionel Adolphus Hart britânico (1907-1992)

Culpem os juízes e o Judiciário se os Estados Unidos forem atacados

Reação do Presidente americano, Donald Trump, à rejeição do recurso impetrado pelo Departamento de Justiça contra a liminar concedida pelo juiz James Robart, suspendendo o decreto presidencial que banira a concessão de vistos de entrada nos Estados Unidos para cidadãos de sete países muçulmanos.

    Prezados leitores, quanto mais eu assisto, na qualidade de espectadora interessada, mas passiva, aos imbróglios políticos a que os Brasil e os Estados Unidos estão submetidos atualmente, fruto do sistema de triângulo amoroso escolhido por nós, do Novo Continente, mais admiro o sistema britânico de governo, que eu diria ser um belo pas de deux. Explicar-me-ei, falando primeiramente sobre os recentes desdobramentos da decisão de junho do ano passado pelos britânicos de sair da União Europeia.

    Uma gerente de investimentos, Gina Miller, partidária da permanência da Grã-Bretanha na União Europeia, resolveu fazer uso do Judiciário para atrapalhar a festa dos vencedores. Ela argumentou em sua petição à Alta Corte da Grã-Bretanha que foi um ato do Parlamento de 1972 que colocou o país na União Europeia e, portanto, só um ato do Parlamento poderia tirar o país daquela organização. Diante da aceitação por aquele tribunal das alegações da autora, a primeira-ministra Teresa May impetrou recurso na Suprema Corte, que em 24 de janeiro estabeleceu que o Parlamento deveria realizar uma votação a respeito se dá ou não autorização ao governo para começar o processo de saída da Grã-Bretanha da EU. Pois bem, em 1º de fevereiro os membros da Câmara dos Comuns decidiram por 498 votos a favor e 114 contra a aprovar o projeto de lei que dá à primeira-ministra o poder para invocar o artigo 50 do Tratado de Lisboa, e iniciar formalmente as negociações para a retirada. Pronto, os descontentes com o Brexit tiveram direito de manifestar-se, e melhor, o judiciário manifestou-se de maneira comedida, simplesmente passando a bola para o Parlamento. Todos os três poderes daquela monarquia saíram reafirmados, o que não significa que não haverá acirrados debates na Câmara dos Lordes e não haverá alterações no projeto antes que ele se transforme em lei. O importante é que o princípio basilar do sistema britânico continua intacto: o Parlamento é soberano. E melhor ainda: a vontade do povo, manifestada me 23 de junho de 2016, foi respeitada. Lindo, fino, elegante, sem vituperações, sem acusações mútuas. Tudo à altura da Regina Elizabeth II.

    Do outro lado do Atlântico, a coisa muda de figura. Os Estados Unidos lançaram a moda e nós, em 1891 por intermédio, entre outros juristas, de Rui Barbosa, copiamos na nossa primeira Constituição Republicana. Temos uma Constituição escrita promulgada por um poder constituinte original que fez aquilo que quis quando se reuniu, e a tal Constituição o Legislativo, o Executivo e o Judiciário devem submeter-se. Mas, quando houver conflitos sobre se um ato de qualquer dos três poderes é constitucional ou não, quem resolve a questão e no jargão técnico “diz a lei”, isto é estabelece o que está de acordo com a Constituição e o que viola a Constituição, é o Judiciário. Na prática, isso significa que o órgão de cúpula do Judiciário tem a palavra final. Não haveria grandes problemas se os juízes mostrassem comedimento e se limitassem a uma interpretação literal do texto da Constituição, no caso dos Estados Unidos, cuja Carta Magna é enxuta. e se no caso brasileiro não tivéssemos uma constituição programática que dá ao juiz esse papel de executor das boas intenções dos constituintes de 1988. No entanto, em uma era de afirmação de direitos de grupos especiais, e de descrédito da classe política, como ocorre tanto nos Estados Unidos como no Brasil, o Judiciário têm sido usado como um cabo de guerra na disputa entre os grupos de interesse, cada um deles querendo dar um sentido diferente às palavras da Constituição escrita.

    Não custa repetir aqui neste meu humilde espaço como o impeachment de Dilma Rousseff foi obtido pelos descontentes com sua reeleição em 2014 por meio do Judiciário e depois do Legislativo. E mais, o governo Dilma então enfraquecido foi inviabilizado de vez quando sua tentativa de nomear Lula ministro foi repelida pelo STF. Pois bem. Desde lá nós brasileiros só assistimos ao bateu levou incessante. Agora é a vez de Moreira Franco, nomeado ministro por Michel Temer, ser alvo de ação no STF porque ele é investigado na Lava Jato. Como Lula no ministério era mera blindagem contra processos judiciais em foros comuns e Moreira Franco no ministério de Temer não é? Mais uma vez o Judiciário vai decidir, independentemente do que a maioria do povo pensa sobre a legitimidade do atual mandatário do Brasil. Na década de 80, em plena década perdida, o noticiário era dominado pelas façanhas dos economistas, agora o protagonismo cabe aos órgãos da Justiça. O povo continua ao largo, chamado a apertar botões a cada dois anos, mas parece que nossa tarefa é simplesmente escolher os gladiadores que serão imolados no Coliseu de Brasília, vulgo STF.

    A eleição de um populista para a Casa Branca também parece estar levando os Estados unidos por essa trilha de disputas intermináveis. Trump está tentando cumprir o que prometeu aos seus deploráveis eleitores: tornar as fronteiras mais seguras e criar empregos perdidos com a globalização. Mas a parcela daqueles que o detestam é grande e está se mobilizando por meio do Judiciário. O Aprendiz é um galo de briga e seus twitters bombásticos mostram que ele vai lutar até o fim. Qual será o fim? O total descrédito do Judiciário e do Legislativo se Trump conseguir afirmar seu poder? Ou o impeachment de Trump depois de inúteis batalhas em que ele será vencido pelos grupos de interesse? E se houver impeachment lá como aqui? Como ficam os eleitores que nele votaram? Será que se sentirão traídos pelos grupos que controlam o Judiciário e o Legislativo? Qual será sua reação? Lembrem-se que os Estados Unidos já passaram por uma guerra civil no final do século XIX…

    Prezados leitores, sei que seria ingênuo importar o sistema britânico para nossas plagas, afinal a história, a cultura, depõem contra tal medida. No frigir dos ovos, no caso do Brasil, a maior parte do povo brasileiro se fosse escolher entre nossos políticos, envolvidos até o pescoço com a corrupção, e o Judiciário, escolheria este último, que justamente está revelando a simbiose sinistra entre grupos econômicos e nossa classe política. Quanto aos Estados Unidos, a coisa é diferente e mais momentosa, porque eles são um império nuclear e se o povo que elegeu Trump decidir ir às ruas, armados, para defender sua escolha soberana, o caldo pode entornar. De qualquer forma, é de lamentar que neste lado do Atlântico não possamos assistir à bela sincronia em que o Judiciário simplesmente diz ao Parlamento para cumprir sua obrigação e fazer leis e que se desenrole diariamente diante de nossos olhos os tapas e beijos trocados entre os três poderes. No que dará este triângulo amoroso das Américas saberemos em breve.

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Sinuca de bico

Elso Pozzobon, vice-presidente da Associação dos Produtores de Milho e Soja do Mato Grosso, diz que a agricultura “vai ajudar a economia a sair da letargia.” Para Silveira, o agronegócio evita outro ano recessivo no País. Porém, pelo fato de ter cadeia curtas de produção e empregar pouco, o setor não pode trazer de volta o crescimento: “Essa função ainda é da indústria.”

Trecho retirado do artigo intitulado “Agronegócio dribla inflação, tem safra recorde e injeta até R$ 237 bi no País, publicado no jornal O Estado de São Paulo de 29 de janeiro

Crise faz dobrar procura pelo serviço militar entre jovens que se alistam em SP
Título de artigo publicado no mesmo jornal sobre a estratégia usada por jovens brasileiros para escapar do desemprego

Um país industrializado beneficiar-se-á se um parceiro comercial subdesenvolvido adquirir novas indústrias e melhorar de maneira geral sua produtividade. Continuará a beneficiar-se até que aquele parceiro tenha atingido um nível de desenvolvimento que lhe permita desempenhar um papel mais significativo no mercado global. Depois desse ponto, a aquisição de indústrias pelo parceiro recém-desenvolvido torna-se prejudicial ao país mais industrializado. […] é importante perceber que no mundo de hoje os interesses de uma empresa e do seu país de origem em termos de localização das unidades de produção pode apresentar grandes divergências.

Trecho retirado do livro “Global Trade and Conflicting National Interests” de Ralph E. Gomory e William J. Baumol

    Prezados leitores, tive um choque esta semana quando me foi informado que terei que trabalhar na segunda, na terça e na quarta-feira de Carnaval. Isso nunca havia me acontecido antes na empresa na qual trabalho há exatos 10 anos. Os dias de folia são um patrimônio imaterial do Brasil, afinal fomos nós que levamos a festa herdada da Europa ao paroxismo, com os blocos carnavalescos, os desfiles das escolas de samba, a dança desabrida nas ruas, as sátiras políticas. O Carnaval também é patrimônio da Igreja Católica, marcando o início da Quaresma de preparação para a comemoração da Páscoa. Lembro-me dos folguedos que presenciei em Lucerna, na Suíça. Fiquei maravilhada com a estranheza de tudo: as roupas de inverno pesadíssimas, mas não menos coloridas do que as nossas, que me informaram serem inspiradas nos trajes do exército que lutou contra a invasão napoleônica, as músicas tocadas nos bumbos, que eu associei a algo como o heavy metal, o desfile ordeiro pelas ruas da cidade, onde as pessoas dão vazão a suas paixões sempre dentro de certos limites estritamente seguidos. Enfim, onde há catolicismo há Carnaval, que se adapta à índole do povo.

    Do ponto de vista estritamente jurídico, o feriado só existe mesmo na terça-feira em alguns Estados brasileiros, não todos. Portanto, a empresa que faz os funcionários trabalharem no Estado de São Paulo não comete nenhuma ilegalidade, já que aqui nossa Assembleia Legislativa nunca teve a caridade de aprovar uma lei instituindo a terça-feira como dia obrigatório de ócio remunerado. O que não significa que ela não seja culpada de uma tremenda mesquinharia. Dar a nós trabalhadores a alegria de folgar quatro dias por liberalidade é algo por que trabalhamos o ano todo. E no entanto, neste ano de 2017 minha empresa decidiu economizar dinheiro, obrigando-nos a queimar banco de horas se quisermos desfrutar da festa. Por que será? Desconfio que o fato de o Brasil estar com 12 milhões de desempregados no final de 2016 dá um estímulo aos patrões para folgarem conosco, serem mais rígidos e lembrarem-nos que para os descontentes com o trabalho em pleno momento em que o país todo cai na diversão a “porta é a serventia da casa”.

    O Brasil está realmente em uma sinuca de bico. O único setor em que temos vantagem competitiva no mundo global é o agronegócio, mas a agricultura de exportação que é a menina dos olhos da economia, que bate recordes de produtividade e que gera know-how de cultivo exportados para outros países tropicais não gera empregos. Os empresários do setor, donos de vastas extensões de terra, quando acumulam renda compram uma colheitadeira de um milhão e meio de reais operada por um único indivíduo dentro de uma cabine com ar-condicionado. Para que a agricultura gerasse empregos teríamos que investir em agricultura familiar, mas seria preciso dar apoio técnico e financeiro para que o pequeno negócio fosse viável e gerasse renda. Como disse Pozzobon, a boa e velha indústria ainda é o método mais eficiente de gerar empregos por causa dos vários elos das cadeias de produção. Para fabricar uma singela boneca preciso de plástico, tinta, pano, maquinário, os quais são fornecidos por outras indústrias, gerando um círculo virtuoso. Mas como já estamos carecas de saber, nossa indústria foi atingida seriamente pela concorrência chinesa e em certos setores certamente foi ferida de morte. Criança, eu brinquei com Susis fabricadas pela Estrela, andei de bicicleta Cecizinha Caloi da qual ainda lembro as meigas flores pintadas no cano e ouvi meus discos da Mônica e do Cascão em uma vitrola Phillips made in Brazil. Tudo isso virou poeira, como provavelmente dirá Ivete Sangalo em algum trio elétrico em Salvador. O que fazer?

    Os jovens brasileiros de 14 a 24 anos, cujo desemprego atinge 27,7%, ante a taxa total de 11,8% de acordo com os dados do IPEA, têm se virado como podem. Tentar entrar no Exército, Marinha ou Aeronáutica é uma tendência recente, infelizmente restrita aos privilegiados que conseguem obter as restritas vagas. Não será surpreendente se houver um recrudescimento do interesse no sacerdócio católico, evangélico ou de outra denominação religiosa, que oferece a estabilidade tão almejada em tempos em que tudo o que é sólido desmancha-se no ar. Será que quando voltarmos a registrar taxas positivas de crescimento conseguiremos criar vagas em número suficiente para compensar aquelas que foram perdidas? Especialistas da consultoria Tendências e GO Associados preveem que só em 2021 “o Brasil deverá recuperar o nível de estoque de empregos formais do final de 2014, quando o país vivia uma situação considerada de quase pleno emprego”. Mas isso é só uma projeção que para ser concretizada depende de uma conjunção de vários fatores.

    No livro sobre comércio internacional citado no início deste artigo os autores argumentam que para um país gerar emprego e renda no mundo global é preciso investir em pesquisa básica, infraestrutura, é preciso ajuda governamental, e de modo geral um inconformismo com um certo papel na ordem mundial. Para Golmory e Baumol o comércio internacional não é nada daquilo que nos pintam: um mundo harmonioso em que quanto mais os países se abrem para os produtos de outros países mais todos ganham. Eles descrevem um quadro mais sombrio, da lei do mais forte, em que em muitos casos para que alguns ganhem outros têm que perder. É claro que há situações perfeitas em que a economia de um país é complementar à de outros, como ocorre com aqueles especializados em alguns produtos agrícolas que vendem sua produção a países industrializados. Por outro lado, a trajetória de um país como a China, que começou produzindo quinquilharias e foi subindo degraus até tornar-se a usina do mundo, mostra que se de início um país como os Estados Unidos beneficiou-se do crescimento econômico no Império do Meio fornecendo-lhe capital, know-how e acesso a mercados, no século 21 está claro que a China aprendeu muitos truques e agora é capaz de disputar posições nos mesmos mercados que o Tio Sam. Terceirizar a produção de I-phones para a Foxconn pode ser lucrativo para a Apple, mas já passou-se o ponto de equilíbrio da complementaridade da economia dos dois países: a renda e o emprego gerados na China são muito maiores do que o emprego e a renda gerados nos Estados Unidos, como mostram os índices reais de desemprego na “América”, que está acima de 23% de acordo com o advogado e ativista político Michael Snyder, apesar dos lucros fabulosos da dona da maçãzinha comida e de outras empresas que beneficiam-se da globalização.

    Talvez o maior defeito do facínora eleito presidente dos Estados Unidos seja que ele vê a realidade como ela é nua e crua, sem os mitos vendidos pelos ideólogos da ordem vigente: o mundo global faz perdedores e vencedores, empregados e desempregados, e nem tudo o que é bom para as multinacionais, incluindo acordos multilaterais de comércio que as blindam contra leis e regulamentos locais, é bom para o país de origem da multinacional. Os deploráveis americanos que ainda têm direito de votar reagiram contra a drástica diminuição da possibilidade de viver uma vida de classe média sustentada por sólidos empregos na indústria e resolveram lutar para não serem jogados na lata de lixo da História.

    A unanimidade contra Trump mostra que as verdades que ele fala ferem muitos interesses há tempos consolidados que se escamoteiam em discursos anódinos sobre tolerância e liberdade para angariar a simpatia dos inocentes úteis. A sinuca de bico da disputa por empregos é vivida por todos no século XXI e cada país tentará sair dela a sua maneira, seja rendendo-se à ordem global ou resistindo a ela. Quem vencerá? Alia jacta est.

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