Em busca do Santo Gaal

Sentíamos que o Krul seria o mais apropriado. Ele tem envergadura. Foi-lhe dito que se preparasse, estava previsto. Se eu tivesse cometido um erro, eu teria que ter enfrentado as críticas.

Aloysius Paulus Maria Van Gaal, professor de educação física e técnico da seleção holandesa de futebol, explicando sua substituição do goleiro titular Cillessen para a cobrança de pênaltis nas quartas-de-final da Copa do Mundo.

O peculiar da vida brasileira parece ter sido, por essa época, uma acentuação singularmente enérgica do afetivo, do irracional, do passional, e uma estagnação ou antes uma atrofia correspondente das qualidades ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras.

Trecho extraído de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda

             Prezados leitores, como diria o poeta, “cessa tudo quanto a antiga musa canta que um valor mais alto se alevanta”. Se na semana passada, eu quis chamar a atenção para os dramas que estão se desenrolando no mundo afora enquanto cá estamos experimentando fortes emoções na Copa do Mundo, nesta semana farei o contrário e focarei minhas atenções em um personagem futebolístico, para mim muito interessante porque ele dá o que pensar a respeito de outros assuntos.

           Falo do rabugento e politicamente incorreto técnico da seleção holandesa, conhecido como Louis Van Gaal, e que ontem realizou seu maior feito: ao substituir um goleiro de 1,88 por um de 1,93, Van Gaal causou um abalo psicológico no time da Costa Rica, que apesar de ter um excelente goleiro,Keylor Navas, e de ter se saído bem na cobrança de pênaltis contra a Grécia, acabou sendo derrotada. Digo seu maior feito, porque Van Gaal tem se caracterizado por mostrar uma capacidade incrível de dançar conforme a música tocada nesta Copa das Copas, o que significa mudar os jogadorese o estilo de jogar do time de acordo com os desafios do momento. Aliás, ele já usou 20 dos 23 jogadores que convocou, o que mostra que se vale de todos os recursos para conseguir seu intento de ganhar o título.

               É sempre admirável ver um líder em ação, alguém que tem uma meta, sabe traçar um caminho e sabe mobilizar sua equipe para chegar lá.  Para isso, pessoas como Van Gaal nunca agradam e estão pouco se importando em agradar. O goleiro Cillessen quando saiu de campo mostrou sua irritação chutando uma garrafa de água, tendo sido pego de surpresa já que não sabia dos planos do chefe. Depois do resultado obtido, ele enfiou a viola no saco e pediu desculpas, afinal teve que reconhecer que o técnico holandês havia se preparado para o pior, isto é, a decisão por pênaltis, e que para tal decisão o goleiro mais alto intimidaria mais os batedores da Costa Rica.

     É claro que há sempre um quê de loucura nos líderes. Van Gaal pode acertar retumbantementemantendo-se fiel a suas ideias, mas de vez em quando sua autenticidade é pura teimosia. Que o diga o jogador brasileiro Rivaldo quando foi dirigido pelo holandês. Van Gaal queria que ele jogasse como ponta esquerda e Rivaldo preferia atuar no meio campo. Como Rivaldo não obedecia ao técnico este passou a persegui-lo, implicando com 20 segundos de atraso ou com a camisa para fora do calção. Acabou fazendo Rivaldo sair do Barcelona e recebendo a acusação de ter inveja. Outro brasileiro “perseguido” por Van Gaal foi Lúcio, que foi dispensado do Bayern Munique na temporada 2009 2010 quando o holandês passou a dirigir a equipe alemã.

          Em suma, todos esses detalhes futebolísticos que trago aqui levaram-me a lamentar que tipos como Aloysius Paulus Maria Van Gaal não sejam mais comuns nas nossas plagas.Pode ser que o Brasil seja campeão do mundo na base da tal da “raça”, da gana de ganhar a Copa em casa por parte dos jogadores que querem dar um presente ao povo brasileiro “patrocinador” por bem ou por mal dos custos monstruosos do evento. Será um feito incrível, e deveremos isso ao imponderável da influência das emoções à flor da pele, em virtude da saída de Neymar à base da joelhada nas costas e da vontade de vencer dos jogadores raivosos com o que foi feito ao nosso maior craque, o mártir da Copa. A mim isso não importa, porque estou interessada no mundo além futebol.

         Quantos de nós brasileiros vemos métodos racionais serem aplicados nas várias esferas da vida em terras tropicais? Antes de mais nada devo esclarecer que para mim ser racional não é reprimir as emoções, ser “travado” como dizemos aqui. Ser racional é tomar decisões baseadas nos fatos tal como se apresentam a olhos serenos e não naquilo que queremos que os fatos sejam, significa que um problema concreto será resolvido pela análiseda realidade do momento e pela estimativa dos piores cenários para que caso os acontecimentos se desenvolvam de maneiranegativa, não sejamos pegos desprevenidos.

           Voltando à pergunta, quantos de nós no Brasil somos ensinados nas escolas a resolver problemas? Minha passagem pelos bancos escolares, nos quais estive até o ano passado, sempre me deixou com a sensação de queo mais importante é cumprir protocolos, fazer provas, passar o conteúdo colocado no currículo para estar em dia com as exigências burocráticas do MEC, mas a utilidade prática de tudo aquilo não era importante, o importante era o carimbo ao final, em suma o diploma. Quantos denós no Brasil vemos obras públicas sendo construídas prevendo o pior cenário de maneira que ele possa ser prevenido e não ocorra?Nesta última semana um dos legados da Copa em Belo Horizonte, um viaduto que seria uma importante ligação para o Mineirão espatifou-se, matando duas pessoas, um triunfo da esperança de que nada de mal ocorreria, apesar de haver toda probabilidade de ocorrer, já que a prefeitura da cidade não havia fiscalizado a obra.

         Finalmente, quantos de nós brasileiros já fomos testemunhas de uma campanha política em queo radicalismo das opções absolutas dá a tônica e as discussões giram em torno do embate de personalidades, sem que seja dada importância sobre o que o candidato de fato fez? Por acaso, a disputa Dilma Rousseff versus Aécio Neves versus Eduardo Camposestá sendo apresentada em termos de eficiência objetiva? Dilma é sempre a apadrinhada do Lula, Aécio é o apadrinhado do avô, Tancredo Neves, Eduardo Campos é o apadrinhado de seu avô, Miguel Arraes, Marina Silva é apadrinhada de Chico Mendes.O que de fato cada um dos candidatos fizeram quando ocuparam postos no Executivo ou Legislativo? Isso não é importante, o importante é a peleja, o duelo dos titãs, danem-se os fatos, viva o drama, as emoções!

            Prezados leitores, tenho certeza que no dia em que considerarmos o método Van Gaal de lidar com os assuntos, sem atropelos, com objetividade e sem confiança demasiada nas boas intenções, teremos dado enormes passos para resolver tantos dosnossos problemas, e poderemos ser menos melodramáticos, menos masoquistas e martirizados do que somos hoje.

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Morte às diferenças!

(…) o primeiro tipo de legislador levava em conta os diferentes tipos de cidadãos e os combinava em uma única comunidade, o outro tipo, os legisladores metafísicos e alquimistas,seguia o caminho exatamente oposto. Eles tentarammisturar todos os tipos de cidadãos, da melhor maneira que podiam, em uma massa homogênea.

Edmund Burke (1729-1797) em “Reflexões sobre a Revolução na França”

                Prezados leitores, a Copa do Mundo está se desenrolando no Brasil,proporcionando grandes emoções aos espectadores, com reviravoltas inesperadas, grande ansiedade para nós brasileiros, eternos sofredores diante desta seleção canarinhopara lá de medíocre montada pelo retranqueiro e maquiavélico Felipão, para quem o fim de vencer justifica os meios, e a influência talvez não decisiva mas considerável do calor na eliminação de pesos-pesados do futebol como Itália e Inglaterra. Com tantas manchetes espetaculares, a mídia brasileira tem deixado de lado muito do que acontece na cena internacional. Mas o fato é que há coisas muito importantes se desenrolando lá fora que podem afetar a vida de todos nós.

                Talvez a mais significativa para o futuro da humanidade seja a crise na Ucrânia. Nenhuma negociação chegou a bom termo, e o último passo foi dado pela União Europeia, que deu um ultimato à Rússia para que esta reprima as manifestações separatistas que estão ocorrendo no sul e leste da Ucrânia, sob pena de serem impostas sanções aos russos. O que Putin vai fazer? Ceder à pressão dos Estados Unidos por meio de suas marionetes europeias ou partir para o conflito escancarado, cortando o fornecimento de gás à Europa, ou mesmo lançando um míssel nuclear? A posição dos americanos é clara: eles querem que a Rússia ceda a todas as exigências americanas e que ela aceitena sua fronteira um governo totalmente hostil pró OTAN e pró União Europeia, com a qual acaba de assinar um acordo comercial.Provavelmente, por ora Putin espera que os europeus se convençam que é melhor negociar, cada uma das partes cedendo, mas se os líderes da Europa continuarem defendendo os interesses americanos e se esquecendo dos seus poderemos ter uma guerra nuclear.

                A crise da dívida da Argentina, sobre a qual falei neste espaço na semana passada, está se desenrolando e resta saber se a Argentina conseguirá efetuar o pagamento dos credores que aceitaram a reestruturação da dívida em Nova York. Será que as partes chegarão a um acordo de cavalheiros ou a Argentina conseguirá pagá-los em outra jurisdição, por exemplo na Europa? Será que os Estados Unidos colocarão obstáculos a tal alternativa? Essa pergunta é pertinente se levarmos em conta outro episódio que está se desenrolando juridicamente e que mistura política externa e indústria financeira. O banco francês BNP Paribas, um dos maiores bancos europeus, está sendo processado criminalmente em Nova Yorque acusado de violar as leis americanas por realizar transações com Cuba, Irã e Sudão, países do “eixo do mal”, por meio de suas filiais americanas. A multa está colocada em 10 bilhões de dólares. Recentemente, quando da comemoração do desembarque na Normandia na Segunda Guerra Mundial,Hollande pediu a Obama que houvesse certa proporcionalidade, mas Obama esquivou-se dizendo que não tem influência nenhuma sobre o Judiciário, o que é altamente questionável, considerando o quanto o Judicário americano tem ajudado o Executivo na sua luta contra o “terror”, em vista do tratamento dado a Bradley Manning e a Julian Assange.

                Por fim, não posso deixar de lembrar de outro evento geopolítico momentoso, a desintegração do Iraque cujas fronteiras foram estabelecidas artificialmente pela França e pela Inglaterra em 1916 pelo tratado secreto Sykes-Picot. A derrubada de Saddam Hussein, que mantinha o país unido na marra, levou à abertura de uma caixa de Pandora, e atualmente, em vez da democracia que os Estados Unidos prometeram levar aos iraquianos, tem-se uma guerra fraticida, em que uma parte do norte e do oeste do país está nas mãos dos sunitas, o sul, incluindo a capital Bagdá, está nas mãos dos shiitas e há ainda uma terceira região que os curdos pretendem que brevemente seja o Curdistão.O caos que se instalou no Iraque está servindo como uma desculpa para os Estados Unidos estarem considerandointervir de novo. Quem sabe dessa vez eles acertam e estabeleçam um governo estável que traga a prosperidade e a paz aos infelizes iraquianos? Afinal, as intenções são as melhores possíveis, levar os valores ocidentais para os países muçulmanos…

                Prezados leitores, tendo mencionado esses três exemplos de crises que se desenrolam no mundo enquanto cá estamos no Brasil totalmente focados na Copa do Mundo, volto ao filósofo Edmund Burke, minha leitura atual. Para ele uma das condições da instalação de um governo tirânico é a deliberada negligência das diferenças entre as pessoas e a tentativa de imposição de um modelo único, elocubrado na mente dos filósofos que queriam um novo homem, que se comportasse da maneira tal que as ideias dos “sofistas” sobre progresso pudessem ser concretizadas. Não é difícil verificar no nosso mundo tão conturbado como essa lição é de difícil aprendizado. A Argentina colocou-se em uma situação delicada do ponto de vista financeiro,em virtude de decisões erradas dos seus governantes que importaram soluções econômicas mágicas – paridade cambial, Consenso de Washington–as quais acabaram levando ao calote de 2001 e desde então a um sofrido caminho de pagamento de suas dívidas, negociadas e renegociadas em condições draconianas para o país, que permitiram que a Argentina fosse enquadrada por um juiz americano como está sendo agora. Os Estados Unidos interveio no Iraque, país em que as fidelidades religiosas são muito maisimportantes do que qualquer ideal abstrato de liberdade e democracia, e o resultado está aí para todo o mundo ver. E agora querem enquadrar no molde da OTAN-UE a parte da Ucrânia que tem uma maioria étnica russa eque na maior parte da sua história pertenceu à Rússia. Para tanto, é preciso diabolizar Vladimir Putin, com base não no que ele realmente fez, mas no que o vilão criado no Ocidente diz que ele faz. A Crimeia foi anexada depois que sua população decidiu em referendo voltar a ser parte da Rússia e no entanto, somos informados que Putin invadiu a Crimeiae que o referendo é fajuto. Presume-se que as informações dadas pela maior parte da imprensa “democrática” do Ocidente são verdadeiras e que tudo que a Russia Today, o canal de notícias financiado pelo governo russo, mostra seja falso, fruto da guerra de propaganda do ditador Putin, afinal consideramos que a imprensa nas mãos da iniciativa privada é necessariamente livre. E no entanto, Obama tem uma aprovação de 41% nos Estados Unidos, Vladimir Putiné aprovado por 76% de sua população de acordo com a Public Opinion Research Center. Mas claro, a pesquisa é falsa, encomendada pelo monstro perseguidor de homossexuais, opressor dos ucranianos.

                Tudo isso para dizer que vivemos em um mundo global em que precisamos nos enquadrar em certos moldes impostos por certos grupos que são os primeiros a se beneficiarem da padronização. Precisamos ser contra o “terror”, que parece muito mais uma justificativa para intervenção militar em todos os cantos do planeta, a favor de uma certa ideia de democracia que se assemelha muito mais a uma oligarquia, a favor de uma versão do capitalismo que premia as finanças em detrimento da produção. Resta saber qual será o resultado final de mais uma tentativa de padronização na história humana.

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Argentina: salva pelo gongo?

A dívida pública, que de início era uma segurança para os governos, por fazer com que muitas pessoas se interessassem pela tranquilidade pública, caso seja excessiva tende a tornar-se um instrumento de subversão. Se os governos pagam essa dívida por meio de pesados encargos, eles perecem por tornarem-se odiosos à população. Caso não paguem, os governos serão destruídos pelos esforços do mais perigoso de todos os partidos; quero referir-me a um amplo e descontente interesse financeiro, prejudicado mas não dizimado. Os homens que constituem esse interesse buscam sua segurança, em primeiro lugar por meio da fidelidade do governo, em segundo lugar pelo poder desse governo. Caso considerem velhos regimes decadentes, depauperados e com sua energia vital enfraquecida, de maneira que não tenham o vigor suficiente para seus propósitos, eles podem vir a procurar novos governos que tenham mais energia; e essa energia será derivada não da aquisição de recursos, mas de um descaso pela justiça.

Edmund Burke (1729-1797) em “Reflexões sobre a Revolução na França”

              Prezados leitores, em um artigo anterior eu já citei o filósofo nascido em Dublin que foi um profundo crítico da Revolução Francesa. Faço-o pela segunda vez, e de maneira mais extensa, porque um grande pensador nunca fica desatualizado e sempre lança luz sobre fatos presentes, passados e futuros para quem quiser e souber adaptá-lo. Ao ler Burke não me canso de traçar paralelos entre a situação que ele descreve, especificamente as medidas tomadas pela Assembleia Nacional da França no início da Revolução naquele país no fim do século XVIII, e nossas atribulações do século XXI.

                 Entre as várias críticas que Burke faz aos revolucionários, a mais apaixonada é aquela contra o confisco dos bens da Igreja e da nobreza. Como bom conservador, ele considera que o atentado à propriedade é um atentado à liberdade e à justiça, e a justiça deve ser sempre a prioridade número um de qualquer governo civil que seja digno do nome. Burke vê no confisco uma medida tomada como resultado de uma aliança espúria entre o setor financeiro, interessado em tornar os bens confiscados lastro para a emissão de títulos públicos que permitisse ganhos especulativos, ea população em geral, sedenta de vingança contra seus opressores seculares.

              Tal aliança é possibilitada pelos iluministas ateus que denunciavam os abusos do clero e da nobreza e é mal vista por Burke, porque leva a medidas injustas, isto é, a uma violência a direitos de propriedade garantidos até então por leis há muito estabelecidas a que todos os cidadãos estavam acostumados e que ditavam seu comportamento.O confisco da propriedade de uma hora para outra, tornando o que era perfeitamente legal em algo revoltante, é para Burke uma violência que só pode levar à substituição de uma tirania por outra. Em suma, o pensador político irlandês é um ferrenho defensor do que hoje denominaríamos como segurança jurídica e que ele chamava de justiça imparcial, aplicável a todos os cidadãos indistintamente, sem que um determinado grupo seja feito bode expiatório de culpas passadas, presentes e futuras de membros individuais.

                Pois bem, tais palavras fizeram-me refletir sobre o drama que a Argentina vive neste momento. Na segunda-feira dia 16 de junho a Suprema Corte dos Estados Unidos confirmou a decisão do juiz Thomas Griesa de Nova York que decidiu que a Argentina deve pagar integralmenteUS$ 1,5 bilhões de dólares devidos aos fundos abutres. Este nome nada lisonjeiro deve-se ao fato de a especialidade desses fundos é a de comprar a preço de banana papéis de empresas e governos à beira do colapsoe de tentar cobrar o dinheiro judicialmente. É umnegócio de risco que aposta em uma decisão favorável em jurisidição que protege o interesse dos credores. Foi o que aconteceu nesse caso, um juiz americanodando ganho de causa a donos de títulos da dívida do governo argentino que se recusaram a entrar em negociação e aceitar receber menos, como outros fizeram.

                Há várias faces dessa tragédia para a Argentina. Em primeiro lugar, o país teria que pagar US$ 900 milhões de dólares até dia 30 de junho para os credores que aceitaram a renegociação, mas se o fizer em Nova York correrá o risco de ter esse dinheiro embargado para garantir o pagamento dos US$ 1,5 bilhão e portanto entrar em moratória por não honrar os compromisso assumidos desde 2001, quando de sua moratória. Em segundo lugar, se a Argentina decidir pagar integralmente os credores que foram à justiça corre o risco de abrir uma caixa de Pandora, porque de acordo com a cláusula RUFO (sigla em inglês para Rights Upon Future Offers), válida até o final deste ano, teria que estenderas condições oferecidas aos credores reclamões aos credores que haviam aceito as condições menos vantajosas oferecidas anteriormente pelo país. Em terceiro lugar,qualquer que seja a decisão do governo argentino, negociar com os credores que foram à justiça, atendê-los totalmente ou ignorá-los totalmente, o fato é que a Argentina corre o risco de se tornar um pária nos mercados internacionais e ter cada vez mais dificuldades de captar dinheiro, algo fundamental para nós latino-americanos, que não nos destacamos por sermos grandes poupadores.

                A lição desse lamentável episódio é que vivemos em um admirável (ou abominável) mundo em que o destino de uma nação de 43 milhões de habitantes é decidido por um juiz de direito privado preocupado exclusivamente com a execução de contratos. O fato é que o governo argentino, à semelhança do nosso, não prima por altos padrões de eficiência, e deixou que as finanças públicas ficassem descontroladas. Na prática, considerando as restrições cada vez maiores que o direito internacional coloca ao calote soberano dos países, as consequências das más decisões dos administradores públicos serão suportadas pelo povo em geral, em termos de recessão e desemprego. É o que já acontece com a Grécia, obrigada pelos seus compromissos com a União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacionala impor medidas draconianas de contenção de gastos públicos, para que a dívida fosse paga. De maneira análoga, para que o lucro dos fundos de investimento seja garantido, o cinto dos argentinos terá que ser apertado ainda mais.

                Prezados leitores, Lionel Messi salvou a Argentina no jogo contra o Irã com um gol tirado do fundo da cartola do craque. É verdade que brasileiros e argentinos são rivais no futebol, é verdade que os argentinos que invadiram o Rio de Janeiro não estejam gastando os reais que fariam com que a Copa nos desse lucro, como prometeu Dona Dilma, afinalnem em hotel eles se hospedam, dormindo em ônibus e peruas. A despeito de tudo isso, precisamos torcer para que a Argentina ache uma solução de última hora e seja salva pelo gongo aos 45 minutos do segundo tempo, pois os destinos de brasileiros e hermanos estão intimamenteligados: somos o principal parceiro comercial da Argentina, que destina 20% das suas exportações a nós, e a Argentina é o nosso terceiro principal parceiro, a quem destinamos 7,5% de nossas exportações.Em suma, que a Argentina ache seu Lionel Messi no campo econômico e político como achou no campo futebolístico!

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Advogada do diabo

Hoje está igual ao fim do segundo mandato do Lula, o estilo é esse. Passa quatro dias da semana viajando. Só aqui em Porto Alegre ela já anunciou as obras da segunda ponte do Guaíba, que nunca começam, três vezes.

Senador Pedro Simon, do Rio Grande do Sul, que acaba de anunciar sua aposentadoria, em entrevista ao jornal O Globo de 15 de junho

Você viu que não tinha ninguém com a cara de pobre, a não ser você, Dilma. Não tinha nenhum pelo menos moreninho. Era a parte bonita da sociedade, que comeu a vida inteira e chegou ao estádio para mostrar que educação a gente aprende em casa, vem de berço. Eu duvido que um trabalhador desse país, que uma mulher ou que um homem tivesse coragem de falar 1% dos palavrões que eles destilaram, de uma cretinice fomentada por uma parte da imprensa brasileira.

Lula durante um encontro do PT em Pernambuco no dia 13 de junho

                Prezados leitores, hoje tratarei de um assunto óbvio, a Copa do Mundo, e dentre os vários temas possíveis, de um subtema mais óbvio ainda, as vaias e xingamentos infligidos á presidente Dilma Rousseff no jogo de estreia do Brasil na Copa. Digo óbvio porque muito se falou a respeito desse tema, e serei eu mais uma a dar minha opinião.O tom geral foi de indignação pela falta de educação, de cavalheirismo em face de uma mulher; pela falta de respeito em relação à figura da chefe da Nação; pela inconsistência da burguesia paulista que nunca vaiou Maluf, um homem quenão pode sair do Brasil, porque será preso; pela defesa de interesses mesquinhos dos privilegiados que estão descontentes com as políticas públicas do PT no poder em favor dos mais desfavorecidos; pela falta demotivo plausível para protesto, afinal as pessoas que tinham dinheiro para comprar ingresso padrão FIFA não sofriam com as mazelas dos serviços públicos de saúde e educação.

                Enfim, as vaias e os xingamentos são descabidos porque vindos de um grupo de brasileiros mimados, ricos e como todo rico e mimado, mal-educado. Lula, como sempre um mestre na manipulação das tensões sociais do Brasil em proveito próprio, lançou mão do seu velho truque de comparar os pobres virtuosos, que jamais cometeriam a deselegância de mandar a presidente tomar no ##, com os ricos cheios de vícios. Ao mesmo tempo, como a época é de eleições e votos sempre são bem-vindos, espertamente ele colocou a culpa pela animosidade na imprensa. Eu poderia acrescentar que os mauricinhos e patricinhas que estavam no estádio não teriam xingado Dilma da maneira desabrida com que fizeram se estivesse cara a cara com ela. Cada um deles sentiu-se encorajado ante a proteção da multidão que entoava o coro em uníssono. É um comportamento que replica aquele que se torna muito comum na internet, o de criação de perfis falsos para que a pessoa possa dar vazão a suas raivas e ressentimentos lançando vitupérios a torto e a direito, protegida pela certeza da impunidade, da falta de consequências negativas de seus ataques.

             Se de um lado não há como negar a deselegância e a covardia do ato, permitam-me desempenhar o papel de advogada do diabo, lançando-lhes umapergunta: Quem estava na Arena Corinthians na tarde de 12 de junho de 2014 sendo vaiada? A Presidente daRepública Federativa do Brasil, Dilma Rousseff, representante do país que está sediando a Copado Mundo, ou a candidata do PT à reeleição? A resposta pode parecer óbvia, mas a mim não parece, considerando que a campanha está nas ruas, e como afirmou Pedro Simon, a chefe do governo dedica uma considerável parte do seu tempo ao esforço de reeleger-se. E pior, muitas medidas tomadas pelo Executivo federal são concebidas com vistas às eleições, haja vista a criação de despesas, renúncias de receita e emissões de dívida, que somaram só em 2014 R$27,9 bilhões, de acordo com o jornal o Estado de São Paulo.É um fato da nossa política que a busca por um novo mandato afeta todas as decisões do governo no anodo escrutínio eleitoral, e não é nenhum exagero dizer que no Brasil infelizmente este “modo reeleição”, especialmente com relação ao cargo de Presidente, tem se antecipado cada vez mais, de tal modo que já no início do terceiro ano de mandato o governante já começa a preocupar-se com as alianças políticas, a escolher ministros com base no toma lá dá cá necessário para angariar apoios.

                Para não me acusarem de ser uma anti-petista enrustida, os tucanos agem da mesma forma. Um exemplo gritantes dessa arte de governar no “modo reeleição” tem sido dado pelo governador Geraldo Alckmin com relação ao gerenciamento da estiagem prolongada em São Paulo. Não sabemos se podemos acreditar naspalavras oficiais, segundo as quais o racionamento tem sido evitado devido às medidas tomadas, entre elas a transferência de água de um sistema para o outro, no caso do Alto Tietê e Guarapiranga para o Cantareira, a utilização do volume morto do Cantareira e do incentivo econômicoà economia de água.Fica a suspeitade que todas essas explicações na verdade são uma cortina de fumaça, ou na melhor das hipóteses um remendo que permitirá à SABESP, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, garantir o abastecimento de água aos trancos e barrancos até que a eleição do mandatário atual ocorra de maneira segura. Depois de outubro, só São Pedro sabe o que poderá acontecer em São Paulo.E os tucanos ficam ainda mais sujos nessa história quando lembramos que foi Fernando Henrique Cardoso quem moveu céus, terras e dinheiro para aprovar a emenda da reeleição.

                Prezados leitores, o ponto a que quero chegar é simples. Nossos membros dos cargos máximos do Executivo, prefeitos, governadores e presidente, ao dedicarem a maior parte de seus esforços à maratona da reeleição, perdem a compostura, e acabam confundindo o interesse público com o interesse de permanecer no cargo, subordinando o primeiro ao segundo. E quem não se dá ao respeito não merece respeito. Talvez essa confusão seja inerente à democracia, e teremos sempre que conviver com o fato desagradável que o político só satisfaz o interesse dos seus eleitores quando aquilo pode beneficiá-lo, seja permitindo sua reeeleição, seja permitindo a eleição de um seu colega de partido ou aliado. Nesse sentido, toda a eleição, seja ela para permitir a permanência do mandatário atual no cargo ou não, é um convite à manipulação, à troca de favores entre o político e sua base eleitoral, o que nem sempre leva à realização de escolhas sensatas para o país a longo prazo.De qualquer forma, essa visão de curto prazo poderia ser ao menos mitigada no Brasil se acabássemos com o instituto da reeleição e alongássemos o mandato do presidente para seis anos como era antigamente, ou para cinco anos no caso de governadores e prefeitos.

                A burguesia mal-educada presente no Itaquerão estava exercitando seu direito de repudiar um candidato, de mostrar seu descontentamento com um gerenciamento medíocre dos preparativos da Copa que fizeram com que a luz do estádio apagasse durante algum tempo, que não houvesse internet sem fio ao redor do estádio, e que os europeus não tenham visto a estapafúrdia cerimônia de abertura por causa de falha de comunicação. Dirigia-se à candidata Dilma, que já está em plena campanha desde ao menos o início de 2014. É verdade que além da candidata estava lá presente a presidente da República, democratica e legalmente eleita, que merece toda consideração do povo brasileiro. Mas nessa nossa democracia da reeleição fica cada vez mais difícil distinguir um do outro.

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Sindicato de ladrões

O que tinha para ser roubado já foi.

Joana Havelange diretora do Comitê Organziador Local da Copa do Mundo

A Comissão Europeia publicou seu primeiro relatório oficial sobre a corrupção na União, cuja extensão o comissário autor do documento descreveu como de tirar o fôlego: em uma estimativa conservadora, a corrupção custa à União Europeia tanto quanto todo o orçamento da organização, algo em torno de 120 bilhões de euros – o número real sendo “provavelmente muito maior”.

Perry Anderson, historiador e professor na Universidade da Califórnia, no artigo “O Desastre Italiano”, publicado no London Review of Books em 22 de maio de 2014

                Prezados leitores, a corrupção é um tema caro a nós brasileiros. Vira e mexe ela aparece como fator de grande influência política. Para quem se lembra, Fernando Collor de Mello foi eleito para presidente pegando carona na luta contra os marajás de Alagoas. A onda de protestos que ocorreu no Brasil no ano passado teve como mote a falta de transparência nos gastos para a Copa, o fato de que os estádios custaram muito mais do que o previsto, de que a Copa do Brasil será em termos de dinheiro despendido, equivalente à Copa da Alemanha e da África do Sul juntas. Por outro lado, apesar de o povo se indignar com a corrupção, no frigir dos ovos muitos de nós acabam relevando-a quando pensam que todos roubam, portanto no momento de escolher um candidato é melhor levar em conta outros fatores.

                   De fato, o PT tem o José Dirceu e o mensalão, o PSDB tem Eduardo Azeredo e o mensalão mineiro. O PT tem o escândalo dacompra da Refinaria de Pasadena em seu passivo, o PSDB tem o escândalo da Alstom em São Paulo, governado há décadas pelos tucanos, e portanto de sua inteira responsabilidade. Lula e Dilma eximiram-se de culpa nos dois grandes casos de “maracutaias”. O candidato do PSDB, Aécio Neves, por seu turno, em uma entrevista a uma jornalista da Revista Piauí, que o abordou a respeito da ação penal que estava no STF contra Azeredo, limitou-se a dizer que o ex-deputado mineiro é um “homem de bem” e estava “abatido”, mudando logo de assunto. Isso quando Eduardo Azeredo renunciou ao mandato para levar o processo à primeira instância e adiar o julgamento ainda mais, contribuindo assim para uma prescrição antes mesmo que haja sentenção condenatória,uma atitude sem dúvida velhaca, não condizente com alguém que não teme ser submetido ao escrutínio judicial.

                    Em suma, no Brasil parece que há um sindicato de ladrões, e lamentamos o quanto isso corrói nossa democracia, o quanto isso contribui para a falta de entusiasmo da população em votar, o desleixo com que o fazemos especialmente nas eleições para o Legislativo. Nas próximas eleições presidenciais Marina Silva tem chances de desempenhar o papel de personagem impoluta em quem serão depositadas as esperanças, cada vez mais tênues, de moralidade. Mas, será que também em um eventual governo de Eduardo Campos-Marina Silva, quando os dois realmente colocarem a mão na massa, tiverem que conseguir apoios para aprovação de projetos, tiverem que preencher cargos commissionados, em suma virem-se às voltas com o cotidiano de governar, não farão a mesma coisa que petistas e tucanos fazem há muito tempo?Será que a corrupção não é parte intrínseca do sistema?

                    Essa ideia parece ser plausível quando nos deparamos com o fato de haver grande corrupção em países com instituições muito mais fortes do que as nossas e com um povo que vota facultativamente, e portanto, teoricamente ao menos, com mais consciência. De acordo com o artigo de Perry Anderson citado acima,nenhum país membro da União Europeia escapa incólume do câncer dos “jabaculês”, das “caixinhas”. Um exemplo significativo disso é a Espanha, cujo rei Juan Carlos acaba de abdicar em favor do filho Felipe. Não é simplesmente para dar oportunidade aos mais jovens, como disse o monarca na segunda-feira, dia 2 de junho, e nem por estar alquebrado, depois de cinco operações no quadril, que está passando o bastão.

                    O fato é que o Estado espanhol passa por uma séria crise de credibilidade, pois o país está em crise e o povo percebe que suas elites vivem muito bem. Mariano Rajoy, o primeiro-ministro foi pego com a boca na botija, no caso recebendo nos últimos 10 anos 250 milhões de euros a título de propina para assinatura de contratos de construção. Tal dinheiro foi-lhe repassado por seu tesoureiro Luís Bárcenas, que está sendo processado por ter 48 milhõesde euros em contas não declaradas na Suíça. No seu caderninho de beneficiários, encontra-se outro notável do Partido Popular, o ex-diretor do FMI, Rodrigo Rato. Enquanto isso, em 2013 o índice de desemprego na Espanha atingiu 26,3%, e a Catalunha, a região mais próspera do país, planeja realizar um referendo sobre a separação em novembro que é considerado ilegal pelo governo central. Seja a monarquia, seja o prório Estado unitário, algo será sacrificado na Espanha para satisfazer a sanha do povo por mudanças, afinal em manifestações os espanhóis não se cansam de repetir “que se vayan todos”, incorformados com a desfaçatez dos poderosos.

                    Esta aí um velho novo desafio para as democracias ocidentais, como continuar representando uma população que se vê cada vez mais alienada do sindicato de ladrões. Não deixa de surpreender que ainda nos vejamos às voltas com tais tipos de problemas, afinal teoricamente a independência dos poderes, a existência do devido processo legal, a eleição direta de representantes deveriam ter sido suficientes para que não houvesse mais abusos como havia na época em que os poderosos nem legalmente prestavam contas dos seus atos. Em 31 de outubro de 1517 o monge agostiniano Martinho Lutero publicou suas 95 teses condenando a corrupção na Igreja, cuja manifestação mais gritante era a venda de indulgências. O resultado desse ato de rebeldia foi o cisma no cristianismo ocidental, que no longo prazo selou a decadência da Igreja como formadora da cabeça das pessoas.Mais de dois séculos depois, em 14 de julho de 1789, eclodiu a Revolução Francesa como uma luta pela igualdade jurídica entre os homens contra os privilégios da nobreza e do clero.Com isso, tanto a Igreja quanto o Estado, onipresentes na vida das pessoas na forma de impostos dosmais variados, tiveram seus poderes domados e tiveram que ser mais transparentes nos seus atos e prestar contas ao povo.

                     Pois bem, parece que em pleno século XXI vivemos uma situação parecida, em que as elites vivem em um mundo da fantasia em que não precisam dar satisfações do que fazem a ninguém, driblando o devido processo legal que outrora foi garantia à igualdade dos cidadãos.Tony Blair, no Reino Unido, Helmut Kohl e Gehard Schroder na Alemanha,Nicolas Sarkozy e Christine Lagarde na França, Silvio Berlusconi na Itália, Bertie Ahern na Irlanda, todos têm a ficha suja, mas continuam por aí, dando palestras, ocupando postos de prestígio, dando as cartas nos escalões do poder. Prezados leitores, talvez seja um alívio saber queo sindicato dos ladrões brasileiros seja uma pequena filial do grande sindicato mundial, mas o desafio é o mesmo: o que fazer ante os desmandos? Só o tempo dirá.

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