Viúva negra

      Em meu recesso carnavalesco assisti no You Tube a um programa que eu adoro, Secrets D’Histoire. Felizmente eles estão colocando a versão integral na internet, coisa que não faziam antes. Pois bem, o episódio era sobre Henri IV, rei da França de 1589 a 1610. Seu assassinato por Ravaillac pega o reino desprevenido, já que o herdeiro tinha apenas nove anos, e a viúva, Marie de Médicis, assume o poder como regente. A “banqueira bronca”, como a chamava uma das amantes do rei, revela uma paixão furiosa pelo poder, mas não a mesma habilidade para governar. Dá rédeas soltas a um favorito, Concini, e no momento em que seu filho chega à idade para tornar-se de fato rei, ela se nega obstinadamente a largar o osso e se revolta abertamente contra ele. Ao final o novo rei, Luís XII, consegue livrar-se de Concini, assassinado, e Marie é expulsada França, amargando um exílio miserável em Colônia na Alemanha até sua morte

      Quando terminei de ver a saga da viúva que assume o poder e mete os pés pelas mãos não pude deixar de me lembrar de Cristina Fernández de Kirchner, a presidente da Argentina que está se esmerando nas trapalhadas. Seu mandato era para ser tampão, para guardar lugar para o marido, Néstor, que governou de 2003 a 2007, e eis que em 27 de outubro de 2010 o pinguim morre, frustrando os planos do casal,” restando” a Cristina candidatar-se à presidência para um segundo mandato, conquistado em outubro de 2011.

       Não é meu objetivo aqui fazer uma análise detalhada do desempenho do casal na presidência do nosso vizinho mais importante, mas a princípio destacar alguns pontos positivos e negativos. A reestruturação que Néstor fez da dívida argentina já no primeiro ano do seu governo, apesar de ter sido na prática um calote nos investidores, que até hoje tentam reaver o dinheiro em instâncias internacionais, era a coisa mais sensata a fazer. Digo até que é um exemplo que deveria ser seguido por países europeus como Espanha, Grécia, Portugal, porque fingir que é possível pagar o impagável só para que o sistema financeiro não tenha prejuízos traz consequências sociais desastrosas. Infelizmente, o calote soberano da Argentina permanecerá um caso isolado, porque os porquinhos europeus estão sob o jugo inclemente do ex maoísta José Manuel Durão Barroso, e da filha de pastor luterano Angela Merkel.

     Por outro lado, a lei que Cristina, provavelmente com as bençãos do marido, conseguiu aprovar no Congresso em novembro de 2008, transferindo 30 bilhões de dólares de ativos de fundos de pensão privados para o sistema público de previdência, é uma grande lástima, porque enche a classe média de desconfiança e temor e sem uma classe média pujante que trabalhe esperando algo melhor no futuro nunca haverá prosperidade real em país nenhum. Nós na América Latina precisamos aprender de uma vez por todas que muito mais importante do que conquistar a confiança dos investidores estrangeiros é conquistar a confiança do nosso povo, que mora aqui, que abre negócios, que dá empregos, dar-lhe segurança que não será tungado, que seu dinheironão será confiscado. Infelizmente ainda não estamos suficientemente amadurecidos para vermos nossos governantes terem verdadeiro respeito pelo povo e não vê-lo simplesmente como fonte de votos.

       O confisco do dinheiro dos fundos de pensão ocorreu no primeiro mandato de Cristina, enquanto ela ainda tinha Néstor ao seu lado, mas parece estar havendo uma mudança qualitativa no desempenho da presidente que, em seu segundo mandato se viu viúva com o poder nas mãos.Ela parece não saber o que fazer com ele, e as lambanças tem sido rotineiras, mais do que quando estava acompanhada do marido. Não dou muita importância sobre o pito passado pela presidente do FMI, Christine Lagarde, em 24 de setembro de 2012 a respeito da pouca confiabilidade dos números apresentados pelo governo argentino sobre inflação e crescimento econômico. Se não deixa de ser verdade que as estatísticas kirchnerianas são pouco confiáveis, não menos verdade é que sob certo ponto de vista tal acusação da advogada defensora de banqueiros é covarde porque os Estados Unidos manipulam suas estatísticas sobre inflação e desemprego impunemente. Para quem quiser mais detalhes, veja o site do estatístico americano John Williams em shadowstats.com: os trabalhadores que desistem de procurar emprego não são levados em conta, como se tivessem desaparecido, e para substimar a inflação, pressupõe-se que havendo um aumento de preço de um produto o consumidor irá substituí-lo por outro, de qualidade inferior, e ele terá a mesma satisfação. Em suma, a Argentina é condenada por manipular estatísticas simplesmente por não ter muito poder no cenário internacional.

       Em minha opinião, a loucurada viúva negra Cristina está mais napublicação de uma carta aberta dirigida a Cameron em três de janeiro deste ano pedindo a devolução das Ilhas Malvinas. Qual é o objetivo dela? Criar uma desculpa para uma declaração de guerra ante a negativa do primeiro-ministro britânico? O país não tem problemas mais sérios com quelidar neste momento?De fato, o país tem, um deles sendo a inflação ascendente. A última medida da presidente, introduzida pelo Secretário de Comércio Interno, Guilllermo Moreno, o Concini de Cristina, é um congelamento de preços “acordado” com as principais cadeiras varejistas do país. Em uma economia capitalista, em que as decisões de compra e investimento são determinadas pelo preço dos produtos e pela margem de lucro esperada, isso só leva à falta de produtos e à disparada de preços.

       As trapalhadas da presidente da Argentina não são uma infelicidade só para osargentinos, mas para nós vizinhos e membros do Mercosul. Ter nosso principal parceiro comercial cometendo desatinos enfraquece nossa aliança, já tão combalida pela suspensão do Paraguai, pela entrada na surdina da Venezuela, e principalmente pelo fato de um país com um grau razoável de governança como o Chile ignorar-nos solertemente em prol de um Acordo de Livre Comércio que está sendo negociado entre os países do Pacífico, sob a liderança dos EUA. Enfim, a Argentina desvairada é um Mercosul fraco, isolado e pobre. Torçamos para que Cristina se cure de suas estultices porque a alternativaserá esperar que alguém lhe arranje um exílio oportuno, e isso tem sempre consequências funestas na América Latina.

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So sei que nada sei

“As mulheres, que provocam com suas roupas justas, que se afastam da vida virtuosa e da família, provocam os instintos e devem realizar um exame de consciência, se perguntando: é possível que o busquemos?”.

“O fato é que as mulheres estão cada vez mais provocadoras, elas se tornam arrogantes,acreditam ser auto-suficientes e acabam exacerbando a situação.Quantas relações adúlteras são estabelecidas, no trabalho, no cinema, nas academias de ginástica?É assim que se chega à violência e aos abusos sexuais.”

“Mas se você não sente nada quando vê uma mulher passar nua na sua frente, isso significa que é gay.”

“As crianças são abandonadas à própria sorte, as casas são sujas, as refeições são comida congelada ou fast food, as roupas são nojentas.”

Trechos extraídos de um panfleto intitulado “As mulheres e o
feminicídio-auto crítica saudável, quanto elas provocam?” publicado
no facebook e na porta da sua paróquia pelo Padre Piero Corsi da
Ligúria, na Itália.

“Há neste país uma indústria que funciona nas sombras, cruel, corrupta e corruptora, que vende e semeia violência contra seu próprio povo.”

“Em uma corrida para o fundo do poço, os conglomerados de mídia competem entre si para chocar, violar e ofender todos os padrões da sociedade civilizada trazendo para dentro de nossos lares uma combinação cada vez mais tóxica de comportamento inconsequente e crueldade criminosa — a cada minuto, a cada dia de cada mês de cada ano.”

“Uma criança americana terá presenciado 16.000 assassinatos e 200.000 atos de violência quando tiver atingido a idade de 18 anos.”

                                                 Partes da conferência de
imprensa dada por Wayne LaPierre, presidente da National Rifle
Association, a principal associação que defende o direito ao porte de
armas nos EUA, dada em 21 de dezembro de 2012depois do massacre
em Newton, Connecticut, em que 20 crianças foram mortas em uma escola.

      Prezados leitores, sempre quando acontece alguma tragédia presenciamos a torrente de explicações dos ditos especialistas, que podem incluir educadores, psicólogos, médicos, economistas e palpiteiros de todo gênero a respeito de qual seria o motivo. No primeiro caso, o padre italianotentava entender o porquê de 108 mulheres em 2012 terem sido assassinadas na Itália pelo ex-marido, marido, companheiro ou ex-companheiro. Para o padre, se as mulheres voltassem a ser recatadas, voltassem a cumprir seus tradicionais papéis domésticos de pilota de cozinha, rainha do lar, esposa cordata, os homensnão se sentiriam tentados a ceder a seus baixos instintos.

      Não há como negar que muito do que o padre descreve não está longe da realidade. A entrada da mulher no mercado de trabalho provocou uma revolução na família, e um dos efeitos colaterais foi este, o de que não há mais uma pessoa realmente responsável pelo bom funcionamento do lar. Atualmente, nas famílias de classe média, homens e mulheres se desdobram para trabalhar e dar conta dos filhos. E o efeito colateral é que muitas vezes os pimpolhos passam mais tempo sozinhos no computador, navegando nas redes sociais, do que conversando com seus pais. Ou então comem na frente da televisãoaquilo que mamãe arranjou às pressas ou deixou na geladeira para o filho.

      As crianças comem pior, a casa fica mais suja, mas será que os homens ficam mais violentos pelo novo comportamento liberado das mulheres? Será que os estupros, assassinatos, ataques físicos não são uma constante contrao sexo frágil em todas as sociedades? As mulheres foram despojos de guerra, vendidas como escravas, casadas pelos pais independentemente da vontade delas por toda a história. Este período de relativa paz de que nós gozamos em alguns países e em certas classes sociais do dito Mundo Ocidental é algo expecional e deve ser motivo de regogizo.

    É verdade que houve um lado negro da emancipação feminina: comida congelada, obesidade, vulgaridade, minisaias a qualquer tempo e lugar (fui à missa de Natal no colégio em que estudei e me espantei com a quantidade de mulheres mostrando as coxas à Nossa Senhora). No entanto, a concupiscência masculina estará sempre presente em nosso mundo, independentemente do que a mulher possa fazer para provocar um homem, e a mim me parece leviano querer estabelecer conclusões sobre um suposto aumento das agressões masculinas devido ao que as mulheres se transformaram no mundo pós-feminista.

     Afinal, o padre por um acaso comparou os índices de violência de antanho com os índices atuais? Isolou os outros fatores que poderiam determinar o comportamento masculino, como o desemprego, problemas de saúde, níveis hormonais, local da agressão (isolado, movimentado, escuro, iluminado)?Se não o fez, não passa de um palpiteiro preconceituoso. Eu particularmente prefiro um mundo em que as mulheres não sejam mais exímias cozinheiras, quituteiras, arrumadeiras e lavadeiras, mas que possam ter a liberdade de escolher seu destino.

     No segundo caso, a respeito de Adam Lanza, de 20 anos, que supostamente matou 26 pessoas incluindo a mãe, o campo é ainda mais minado para que as opiniões possam ser levadas em conta, já que as posições são em sua maioria ideológicas. As pessoas de esquerda vão deplorar a defesa ferrenha que os conservadores fazem da Segunda Emenda à Constituição dos Estados Unidos, que dá aos cidadãos o direito de ter armase vão usar mais um massacre perpetrado em escolas como motivo para obrigar os americanos a dar suas armas ao governo. As pessoas de direita baterão na tecla de que não é a arma que mata, são os homens, e que o problema está na sociedade permissiva em que as crianças passam o tempo todo assistindo a filmes violentos, ouvindo músicas que glorificam a violência, jogando video games em que o objetivo é matar o maior número de pessoas possível.

      Quem tem razão? O fato é que já em 29 de dezembro de 1890, muito antes das famílias “desmoronarem” pela entrada da mulher no mercado de trabalho e pelo aumento dos divórcios, muito antes do Nintendo e do Wii, houve um massacre de cerca de 500 índiosem Wounded Knee, nos Estados Unidos. Nesse sentido, considerar as matanças que têm ocorrido nos EUA como algo novo, fruto da libertinagem moderna,ou do aumento do número de armas de posse dos indivíduos, é no mínimo ignorância.

     Meus caros leitores, isso tudo para dizer que o mal está presente no mundo de variadas formas e a tendência humana de querer explicações para tudo tem seu limite no fato de que muito do que ocorre em nossa volta está além da nossa capacidade de compreensão, seja por haver múltiplas causas, seja por ser obra do acaso, ou seja, da falta de causa. Minha utilização da palavra “mal” é uma manifestação do meu próprio sentimento de impotência. Não há nenhuma conotação religiosa nela, apenas uma tentativa de dar um nome a tudo aquilo que o bicho homem faz nesta Terra e que nunca deixará de fazer, por mais que queiramos aperfeiçoar nossa natureza.

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Natal e

     Caros leitores do Montblatt, muitos de vocês já devemter picado a mula para as festas natalinas, seja subindo a serra para tomar a fresca em Petrópolis, ou cruzando a ponte Rio Niterói para a região dos Lagos. Antes de mais nada, para os que lerão nosso jornal renascido das cinzas agradeço àqueles que me acompanharam durante o ano e os comentários bons e ruins que fizerão a respeito dos meus artigos. Boas festas a todos!

     Mas para falar a verdade, rabugenta que sou, desde pequena nunca gostei de Natal. Lembro-me que aos oito anos escrevi uma redaçãoreclamando que as pessoas só pensavam em consumir e esqueciam-se do verdadeiro sentido da celebração. Bem, minha opinião continua a mesma até hoje, mas para dar-lhe mais substância, vou relacionar aqui as coisas que mais me irritam sobre tudo o que ocorre nesta época do ano.

       O simulacro de Europa nos shopping centers

      Todos aqui sabemos que o passeio preferido da nossa classe média são os shopping centers. Lá nos sentimos seguros e longe das pessoas indesejáveis. Por isso cada vez mais eles se transformaram em centros de lazer se não de cultura. Pois bem, ver aqueles trenós, aqueles Papais Noéis vestidos com os trajes típicos, os trenzinhos que circulam pelas montanhas, a neve caindo nos vagões é demais para mim, especialmente quando o calor lá fora no Brasil real e tropical é de 35 graus e sujeito a chuvas e alagamento das ruas sujas de lixo jogado pelas mesmas pessoas que querem ter um gostinho de Primeiro Mundo nos shopping centers.

      As poses ao lado do velhinho, asfilas para pegar o trem rumo à estação de esqui mais próxima, os pais sôfregos tirando fotos dos filhos com seus smartphones, I-phones, câmeras e o escambal, tudo me faz lembrar o quão macaquitos nós somos. Por favor, não me entendam mal, não quero que substitutam o Papai Noel pelo Macunaíma ou o Saci Pererê, afinal há toda uma tradição por trásdos mitos natalinos, mas toda essa frenética atividade que ocorre dentro de espaços fechados nas grandes cidades brasileiras me faz pensar na direta relação disso com a falta de locais de socialização fora das bolhas dos shopping centers. O fato é que a formação de guetos, dentro os que têm e fora os que não têm, contribui para a exclusão e para a criminalidade. A rua, o espaço público vira terra de ninguém. As praças, com honrosas exceções são tomadas por mendigos, os parques se transformam em passeio de pobre, e com eesa demarcação de territórios, as diferentes classes sociais deixam de conviver e cada vez se estranham mais. Quem dera um dia possamos chegar ao nível de civilidade de Buenos Aires, em que domingo no parque não é progrma de televisão, é realidade.

        A hipocrisia familiar

       Como diria Tolstoy, “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”. Ou para sermos mais prosaicos, “Ema, ema, ema cada um com seus pobrema”. Claro que nenhuma família é perfeita e não se pode esperar que o seja, mas nesta época do ano todos se desejam saúde, felicidades, feliz Natal, com sorrisos tão largos, com tanta ênfase, que nem parece que durante todo o ano os familiares brigam por causa de dinheiro, por causa de obrigações comuns que ninguém quer assumir,e no dia a dia mal conversam de fato. Mas vá lá, o importante talvez seja que no final do ano revovam-se as esperanças, fundadas ou infundadas, de que tudo vai ser diferente, que seremos menos mesquinhos, mais tolerantes, mais compreensivos. Afinal a montanha de lembrancinhas, presentes, que trocamos entre nos mostra o quanto nos amamos e respeitamos, não é mesmo.

       Mensagens corporativas

     Fim de ano é a época em que as empresas mostram o quanto se preocupam com seus funcionários, distribuindo cestas de natal, participação nos lucros, décimo-terceiro, festas com comida e bebidas de graça. Mas tudo isso tem um preço, que é o ser obrigado a ouvir aquela mesma lenga-lenga dequanto somos importantes, quanto melhoramos e quanto ainda temos que melhorar, quanto economizamos e quanto ainda podemos economizar, quanto contribuímos para o sucesso da corporação e quanto ainda podemos contribuir… Ufa, cansei. Além do exercício passivo da escuta, tenho que me emocionar quando o chefe chora agradecendo o trabalho da equipe, achar interessantíssimas as palestras motivacionais que me enfiam goela abaixo no fim de semana para fechar o ano com chave de ouro e entrar com tudo no próximo. Enfim, o Natal é o período em que fingimos vestir a camisa da empresa e a empresa finge que nos vê como seres humanos e não, como diria o velho sapo barbudo, um fator de produção como outro qualquer.

       Queridos leitores, para surpresa de vocês, este meu Natal promete ser para mim um dos melhores que tive. Ao menos farei coisas diferentes: vou assistir à Missa do Galo no Mosteiro de São Bento, vou visitar o Parque Burle Marx e o Sesc Intelagos, onde há uma grande área florestal. Enfim vou tentarevitar tudo o que odeio no Natal: a hipocrisia, o consumismo e a empulhação. Se eu conseguir me livrar de apenas uma parte deste ranço já me darei por feliz e ficarei menos acabrunhada do que normalmente fico ao se aproximar o 25 de dezembro.

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Reacionários do mundo, uni-vos!

                Eu descobri ontem algo muito importante a respeito da minha personalidade. Para falar a verdade eu já sabia disso, mas meu professor de Filosofia do Direito, que é marxista ferrenho, me fez ver demaneira inquestionáveluma verdade que para bem da minha honestidade intelectual devo compartilhar com meus leitores. Para que vocês entendam o que sou vou transcrever o quadro que ele colocou na lousa durante a aula:

Progressismo (crítica) futuro esperança
Reacionarismo passado ódio
Conservadorismo presente indiferença

                Tenho certeza que aqueles que me acompanham semanalmente saberão que me encaixo na linha dois, ou pelo menos saberão que minha rabugice é absolutamente incompatível com a linha um. Tendo vestido a carapuça de reacionária, eu só não me conformei com algumas omissões do meu competentíssimo mestre (realmente ele é digno de dar aulas num cursinho, algo fenomenal em uma faculdade em que a maioria dos professores não tem a mínima qualidade de palestrante).

                Ele falou do Francisco Franco, do George Bush e de Adolf Hitler como exemplos de reacionarismo, mas “esqueceu-se” de falar de outros tiranos igualmente famosos do século XX, entre eles Stalin, o pai dos Gulags, Mao Zedong, o mentor da Revolução Cultural, e Pol Pot, líder do Khmer Rouge, todos com um saldo de mortes na cada dos milhões de pessoas. Curiosa em saber como poderiam ser classificados esses três gênios do mal, eu me dirigi ao digníssimo professor ao final da aula e travamos o seguinte diálogo (P para professor e M para Maria Elisa):

M: Professor, como o senhor classificaria Stalin, Pol Pot e Mao Zedong? Eles podem ser considerados progressistas?

P: Stalin era um conservador.

M: Então ele não era progressista, apesar de pregar o marxismo e de se apropriar do discurso do progresso para reformar a União Soviética, é isso?

P: Stalin foi um progressista no começo, foi ele, não Churchill, quem derrotou Hitler, não se esqueça.

M: Com certeza foi ele. Mas o senhor não acha que é um passa-moleque dos marxistas dizerem que o Stalin era um conservador a despeito da sua mensagem flagrantemente marxista de luta contra a burguesia,de abolição da propriedade privada, somente porque ascoisas ao final não deram muito certo e Stalin foi denunciado pelo seu sucessor, Kruschev?

P: Havia pressões sobre ele.

M: O que o senhor quer dizer, pressões externas?

P: Sim, entre outros fatores.

M: Mas foi ele quem mandou os indivíduos do próprio país para o Gulag, não foram os estrangeiros.

P: Houve até agora no mundo uma única maneira tentada de criar o socialismo. O caminho correto ainda não foi descoberto.

(Fim da conversa)

                Meus caros leitores, meu objetivo aqui não é fazer uma comparação do número de mortos da direita e da esquerda, ou qual regime foi o mais bárbaro. Não tenho espaço aqui para analisar as condições históricas que levaram ao poder esse rol de psicopatas. Meu objetivo simplesmente é chamar a atenção para as dificuldades enfrentadas por todos aqueles que quiseram reformar o mundo. Foi preciso matar e matar de maneira sistemática, para se livrar dos reacionários, dos burgueses, dos kulaks que não se enquadravam no padrão do novo homem. E mesmo assim, ao final todos esses sistemas desmoronaram.

                Não estou aqui a dizer que Marx tem as mãos sujas de sangue. Provavelmente ele se horrorizaria com tudo o que foi feito em seu nome. Mas não se pode negar que para uma reacionária como eu, a proposta do autor de O Capital e seu predecessor nesse otimismo existencial, o suíço Jean Jacques Rousseau, tem algo que para mim é completamente ininteligível. Para que o homem volte a ser feliz na civilização ou para que ele realize todas as suas potencialidades sob o socialismo, é necessário que mude de natureza. Para Rousseau a educação moldaria cada pessoa para se tornar generosa e desejar espontaneamente o bem comum. Para Marx, a superação das relações de produçãocapitalistas faria com que acabasse a exploração do homem pelo homem e chegaríamos a um momento da história em que “de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”.

           Minha experiência de vida, particular e portanto irreproduzível, me impede de acreditar que o ser humano possa ser aprimorado. Acredito que haja uma natureza humana: não me perguntem se genética, espiritual, material ou sei lá o que, mas de qualquer forma ela nos faz sermos o anjo caído da metáfora religiosa. Este ser que tem seu lado negro da mesquinhez, da crueldade, da ganância, da inveja, da covardia e o lado brilhante do amor, da abnegação, da generosidade, da coragem. E acredito que em qualquer época, enquanto o ser humano estiver na Terra, haverá este embate entre a luz e as trevas, sem um vencedor defnitivo. Cabe a nós enquanto indivíduos e membros da sociedade, assumir a responsabilidade moral de tentarmos fazer com que a luz prevaleça, mas a luta é sempre incessante. Há momentos em que as circunstânciasmateriais conspiram para que as pessoas deem vazão a seus instintos mais baixos e há outros em que a paz, a harmonia florescem, e estaremos sempre presos a essa dinâmica.

             Querido professor,excelentíssimo Doutor em Filosofia Marx, caro Rousseau, perdoem-me, mas acho que há pessoas neste mundo que não podem e não querem ser educadas, há momentos em nossas vidas em que só pensamos em nós mesmos e em nosso entes mais próximos, e as alianças que as pessoas estabelecem entre si quase sempre se pautam por vínculos tão reacionários quanto os do sangue, da raça, da nacionalidade. Fundar a possibilidade de melhorar as condições de vida do homem na premissa de que somos reformáveis tem um quê de sinistro porque acaba levando a um controle demasiado sobre as pessoas para que elas se comportem da maneira adequada.

           Por isso conclamo os reacionários como eu, que não têm esperança que no futuro tudo será totalmente diferente, a saírem do armário e se unirem. Não para embuídos de ódio saírem à caça dos progressistas, mas para sugerirem com serenidade: que tal admitirmos que certas coisas não podem e não devem ser mudadas, e a única saída é fazermos o melhor com o que temos?

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Impressoes de uma turista

      Há três semanas comuniquei aos leitores do Montblatt que eu iria viajar à Grécia e nosso editor prometeu que eu iria manifestar minhas impressões sobre o país quando voltasse. Para falar a verdade fiquei um pouco angustiada com esse anúncio, porque iria ficar no país somente sete dias, o que é insuficiente para ter noção de como as pessosas de fato vivem. E o turista, por razões óbvias, tem contato sempre com o lado bom das coisas, com as lindezas do lugar, porque seu objetivo não é fazer um estudo antropológico de campo, mas divertir-se, descansar e fazer seu dinheiro ter sido bem gasto, sem que qualquer incompetência ou desastre natural atrapalhe sue investimento.

       Feitas essas ressalvas, para aqueles de nossos leitores que nunca foram à Grécia, o cálculo do custo e do benefício é amplamente favorável. Para os glutões comer lá é muito barato e bom. Eu não cheguei a frequentar restaurantes porque queria economizar a todo custo, mas as lanchonetes, bares e cafés oferecem saladas frias e sanduíches regados a muito pimentão, pepino,  azeitonas, azeite de olíva, manjericão e todos aqueles ingredientes da tal cozinha mediterrânea que dizem os doutores é a que garante a longevidade, livre dos anti-oxidantes cancerígenos. E sabe a que preço? Com quatro euros e meio, um pouco mais de 10 reais eu comia para bater perna pela cidade. Definitivamente Rio de Janeiro e São Paulo não ficam nada a dever aos europeus em matéria de custo de vida, apesar de ainda faltar um bocado para que nós possamos usufruir dos salários e dos benefícios sociais de que eles, por enquanto, desfrutam.

        Para aqueles que estão atrás de cultura Atenas também tem muito a oferecer a bons preços. Não falo nem do Parthenon, para falar a verdade foi um local que não me impressionou lá muito, ou melhor, obtive menos do que eu esperava. As construções estão muito mutiladas, após séculos de depredações e destruição, para que possamos apreciar a beleza do templo que abrigava a estátua da deusa Athena. Turcos, católicos fanáticos, imperialistas ocidentais, todos literalmente tiraram uma lasca do Parthenon e hoje, em que pese estar sendo restaurado, não dá uma pálida idéia do que foi nos tempos áureos de Péricles.

       Para termos idéia do que foi a Grécia de antanho é preciso ir aos museus, onde os gregos guardam aquilo que permaneceu no país. Falarei apenas de dois. Em primeiro lugar o Museu Arqueológico Nacional, fundado sob o patrocínio de um mecenas exilado, Demetrios Bernardakis, que nos anos 1950 e 1960 adquiriu suas feições atuais, após ter escapado por poucode ter a coleção dilapidada na Segunda Guerra Mundial. Esculturas, monumentos funerários, vasos, ânforas nos permitem vislumbrar um dos períodos mais férteis da história humana que deve com certeza encher de orgulho os herdeiros da cultura grega, entre os quais os ocidentais que reivindicam para si tal patrimônio espiritual. Eu fiquei quatro horas andando pelos imensos corredores, e tive a sorte de não encontrar muitos turistas em meu caminho, o que me permitiu apreciar ainda mais tudo o que eu vi. Não é à toa que esse museu é considerado um dos 100 lugares que você deve visitar antes de morrer. Como diria Camões, cessa tudo quanto a antiga musa canta que um valor mais alto se alevanta. Depois de ver todas aquela figuras orgulhosas, altaneiras, ou plácidas e tranquilas a depender se estavam no auge da vida ou de cara com a morte, ficamos um pouco enfastiados com a arte moderna. O preço pago é de seis euros, equivalente ao que se paga para ir ao MASP, em São Paulo, cuja coleção em exibição, ao menos em termos numéricos, não faz sombra ao que é mostrado no museu grego.

       Para não aborrecer os leitores, mencionarei somente o Museu da Acrópole que fica em frente ao local epônimo e custa o mesmo preço que o National Archeological Museum. Não o abordo por ter uma coleção estupenda, pelo contrário, tudo o que contém lá poderia muito bem ser exibido  em uma ala do outro,  mas o objetivo da moderna construção, financiada pela União Européia e com toda a parafernália de segurança e conservação mais atualizada, parece ter sido o de mostraro quão a Grécia faz parte da Europa  por ter sido o berço da cultura ocidental. Fins mais ideológicos do que museológicos, uma fortuna gasta para convencer as pessoas do sonho da Europa unida. Há um vídeo sobre o que era o Parthenon nos tempos pagãos e algumas peças de grande importância para justificar um museu de última geração com uma coleção tão pequena: as assombrosas cariátides retiradas da Acrópole e frisos do Parthenon em processo de restauração. Por mais que saibamos que tudo aquilo fez a alegria dos empreiteiros, não se pode deixar de admirar aquelas formas humanas e animais de tanta plasticidade e movimento. Aqueles homens sentados em seus cavalos em plena refrega são muito mais sexy do que qualquer modelo pegador do Big Brother. É realmente um privilégio poder ter contato com o que o hommo sapiens pode fazer de melhor e que nos aproxima das estrelas.

         A esta altura devo dizer que a turista deslumbrada com o que via também teve contato com o lado digamos não clássico da Grécia, fruto dos desacertos dos últimos anos. Vi demonstrações na Praça Sintagma, sede do Parlamento, vi muitas lojas e estabelecimentos fechados, e em um dos meus dias de estada lá o metrô parou às cinco horas em greve, o que abreviou meus passeios. E na volta ao Brasil tive a desagradável surpresa de receber um e-mail da dona do apartamento em que fiquei acusando-me de ter roubado duas xícaras e pedindo indenização mais alta do que o que eu pagara pelo apartamento. Felizmente, a agência da internet que mediou as relações entre mim e Konstantina aceitou meus argumentos e acabei só pagando por um café derrubado no tapete, sobre cuja limpeza eu já tinha me comprometido com a dona ao vivo. Enfim, pode ser desespero em face da situação econômica, esperteza, sei lá. Mas fiquei um irritada por ter sido acusada de ser ladra. Espero que os gregos em geral não sejam como minha “senhoria”.

         Minha impressão geral é que a Grécia é um país como o Peru: herdeiro de um passado maravilhoso e que não conseguiu fazer nada que contribuísse a essa herança. O jeito é eles se contentarem em ser um parque temático para apreciadores de arte, amantes de belezas naturais e da boa comida.Que os deuses protejam a Grécia dos comissários europeus e da Angela Merkel, que querem fazer uma interferência branca no país, leiloar seus bens públicos e confiscar suas receitas na fonte, independentemente do que isso custará à população. Na próxima semana, se eu estiver inspirada, contarei a segunda parte da minha viagem às “Europas”.

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